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José Lins do Rego: uma guia para leitura

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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

       Desde o ano de 2001, pesquiso a vida e a obra de José Lins do Rego, por meio da leitura de romances, fortuna crítica e crônicas inéditas. Para sistematizar o assunto, montei para a presente coluna quinzenal uma série de apontamentos biográficos que ajudam a situar o leitor interessado no escritor. Sendo assim, a coluna dessa semana terá um formato diferente, pois, ao invés de um texto corrido, trago tópicos que podem vir a contribuir com pesquisadores em fase inicial de investigação. Vamos, pois, aos marcos autorais que considero mais importantes de uma radiografia literária:

Datas

 

Nascimento: 03 de junho de 1901.

Falecimento: 12 de setembro de 1957.

Diagnóstico: cirrose do fígado, síndrome hepato-renal e acidose urêmica.

 

Genealogia:

 

Pai: João do Rego Cavalcanti Albuquerque

Mãe: Amélia do Rego Cavalcanti (morte no mesmo ano do nascimento do filho, com seis meses, tragédia).

Avô materno: o velho Bubu, proprietário de 8 a 9 engenhos.

Avó materna: Janoca.

Mulher: Filomena (Naná) Massa, filha do Senador Massa, da Paraíba.

Data do Casamento: 1923.

Filhas: Maria Elisabeth, Maria da Glória (em Alagoas) e Maria Christina (no Rio).

Madrinha: Tia Maria (Maria Lins).

Primas: Maria Emília e Elza.

 

Formação Escolar:

 

Primário: Instituto Nossa Senhora do Carmo, internato em Itabaiana.

Ginásio: Colégio Diocesano Pio X, capital da Paraíba.

Instituto Carneiro Leão e Ginásio Pernambucano: Recife.

Faculdade de Direito do Recife

16 anos: leitura de O Ateneu, de Raul Pompéia.

17 anos: leitura de Dom Casmurro, de Machado de Assis.

17 anos: primeiro artigo na imprensa, sobre Rui Barbosa.

17 anos: leitura de Sthendal e Rousseau, revelado por Olívio Montenegro.

Anos 1920: leituras favoritas de juventude – Thomas Hardy, Marcel Proust e alguns nomes do modernismo.

Temperamento: extrovertido, exuberante, incapaz de rancores, apaixonado, melancólico, amante da vida, interessado por tudo, cronista. Admirável facilidade de exposição. Gargalhadas, seja quando adulto ou menino. Lírico e romântico, dionisíaco e sensual.

 

Estados em que residiu:

 

Paraíba (1901-1914) – Engenho Corredor, escola em Itabaiana, Colégio Pio X, dos Irmãos Maristas.

Pernambuco (1915-1924) – Instituto Carneiro Leão, Ginásio Pernambucano, Faculdade de Direito do Recife. Nesse período, colaborou na imprensa local e fez amizade com Gilberto Freyre, que o influenciou e, em 1922, fundou o semanário Dom Casmurro.

Minas Gerais (1925) – promotor público em Manhuaçu.

Alagoas (1926-1935) – fiscal de bancos em Maceió. Assinante da Nouvelle Revue Française (NRF), em Maceió. Revue des Deux Mondes.

Rio de Janeiro (1934) – breve passagem, onde se aloja numa pensão na Rua do Catete, 237, próximo a Mário de Andrade e ao Palácio da República;

Rio de Janeiro (1935-1957) – fixa residência na capital da República. Fiscal de imposto de consumo. Estadias obrigatórias de funcionário público em Cabo Frio e Araruama, em 1939/1940.

 

Viagens:

 

Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná – 1942, com Gilberto Freyre.

São Paulo – palestra na Faculdade de Direito, em companhia de Gilberto Freyre; vai à fazenda de Paulo Prado, chamada São Murtinho. Durante as décadas de 1940 ou 1950, volta a dar palestras na cidade de São Paulo pelo menos duas vezes. Na primeira fala sobre o Nordeste, na segunda, sobre Eduardo Prado. Uma delas está reproduzida em A casa e o homem. A outra, sobre a Marquesa de Santos, foi publicada em Homens, seres e coisas.

Argentina e Uruguai – Anos 1940

Europa – Anos 1950

Oriente Médio (Israel) – 1954

Estados Unidos: Recusa ao visto de entrada nos EUA, pois assinou carta contra Franco. Isto ocorre em 1947, durante o Macarthismo. O objetivo era uma visita à filha, embaixatriz em Washington. Carta de solidariedade de Érico Veríssimo.

 

Amizades

 

Paraíba (1901-1919) – José Américo de Almeida (casado com dona Alice), Oscar de Castro, Carlos Romero, Péricles Leal, Edson Regis e Juarez Batista.

Pernambuco (1920-1924) – Aníbal Fernandes, Arnon de Melo (O Jornal), Barbosa Lima Sobrinho (que substitui na coluna dominical do Jornal de Recife), Edson Nery da Fonseca, Gilberto Freyre, Hermínio Borba Filho, José Osório de Morais Borba, Luís Delgado, Manuel Bandeira, Odilon Ribeiro Coutinho, Olívio Montenegro e Souza Barros.

Alagoas (1926-1935) – Aloísio Branco (poemas), Aurélio Buarque de Holanda, Carlos Paurílio (contos poéticos), Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Manuel Diegues Júnior, Mário Marroquim (pesquisas linguísticas), Rachel de Queiroz (de João Miguel – dezembro de 1931 – a Caminho de pedra, de outubro de 1936), Raul Lima (redator-secretário da Gazeta de Alagoas), Santa Rosa e Valdemar Cavalcanti.

Rio de Janeiro (1935-1957) – Afonso Arinos de Melo Franco, Agripino Grieco, Alceu Amoroso Lima, Altamir Alves, Álvaro Moreyra, Assis Chateaubriand, Augusto Frederico Schmidt, Dinah Silveira de Queiroz, Érico Veríssimo, Hermes Lima (PSB), João Condé, Mário de Andrade (viveu no Rio entre 1938 e 1941), Marques Rebelo, Murilo Mendes, Nilson Rezende (médico), Oscar Niemayer, Peregrino Júnior, Roberto Marinho, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Viana Moog, Silva Mello, Simeão Leal (sobrinho de Zé Américo), Tristão de Athayde.

São Paulo: Yan de Almeida Prado, Paulo Prado e Mário Pedrosa.

 

Livraria José Olympio

 

Afonso Arinos de Melo Franco, Breno Acioli, Cândido Portinari, Carlos Drummond de Andrade, Francisco de Assis Barbosa, José Olympio, Lúcia Miguel Pereira, Octávio Tarquínio de Souza, Ledo Ivo, Luis Jardim, Otávio Faria, Otto Maria Carpeaux, Paulo Mendes Campos, Paulo Ronai, Peregrino Júnior, Rubem Braga, Thiago de Melo, Thomaz Santa Rosa (capista e cenógrafo).

 

Amizades esportivas

 

Ary Barroso, Gilberto Cardoso, João Lyra Filho (conterrâneo, presidente do CND, reitor da UEG), Luís Galotti (ministro), Mário Rodrigues Filho, Vargas Neto (gaúcho, presidente da Federação Metropolitana de Futebol), Mário Pollo, Fábio Carneiro de Mendonça (ex-presidente do Fluminense), Emmanuel Lobo (Amigo da Confeitaria Colombo e do grupo Dragão Negro).

 

Amizades políticas

 

Ademar de Barros (conheceu por intermédio de Álvaro Moreira), Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek.

 

Literatura e política:

 

Participação no 1ª. Congresso Brasileiro de Escritores, 1945. Filiação à Esquerda Democrática (1945) e ao Partido Socialista Brasileiro (1947), graças ao vínculo com Hermes Lima.

 

Principais influências literárias

 

Alemanha: Goethe, Heine.

Espanha: Azorín (pseudônimo do escritor José Martinez Ruiz, uma das vozes altas da famosa Generación del 98 na literatura espanhola) Miguel de Cervantes, Miguel de Unamuno.

França: Alfred Musset, Anatole France, André Gide, Charles Baudelaire, Denis Diderot, Émile Zola, Flaubert, Honoré de Balzac, Lamartine, Maeternick, Marcel Proust, Michel de Montaigne, Molière (“Tartufo”), Paul Verlaine, Racine, Renan, Stendhal (“O vermelho e o negro”), Victor Hugo, Voltaire.

Inglaterra: Lord Byron, Oscar Wilde, Thomas Carlyle, Thomas Hardy, T.H. Lawrence, Shakespeare.

Itália: Dante Alighieri, Gabriele D’Annunzio.

Noruega: Ibsen.

Portugal: Alexandre Herculano, Eça de Queiroz, Fialho de Almeida, Júlio Dantas, Luís de Camões, Padre Vieira.

Rússia: Dostoievski, Gogol, Leon Tolstoi.

Católicos franceses: Barrès, Maurras, Péguy, Maritain, La Bruyère, Barbey D’Aurevilly, de Maistre.

Grécia: Aristófanes, Ésquilo, Hesíodo, Homero (poeta grego), Pitágoras, Platão, Sófocles.

Roma: Catulo, Cícero, Virgílio.

 

Principais influências literárias no Brasil:

 

Alagoas: Jorge de Lima.

Bahia: Castro Alves, Rui Barbosa.

Pernambuco: Coriolano Medeiros, Farias Neves (seu professor), Olegário Mariano, Oliveira Lima.

Rio de Janeiro: Benjamin Costallat, Coelho Neto, Euclides da Cunha, Graça Aranha, João do Rio, Machado de Assis (Dom Casmurro); Manuel Antônio de Macedo (A moreninha); Raul Pompéia (O Ateneu); Lima Barreto; Olavo Bilac.

Paraíba: Augusto dos Anjos.

Rio Grande do Sul: Raul Bopp, “O negrinho do pastoreio”, de Simões Lopes Neto.

Sergipe: Tobias Barreto.

 

Cinquentenário de nascimento de Zé Lins (1951):

 

Iniciativa de José Américo à frente do governo da Paraíba. Escritores do Rio de Janeiro presentes ao evento na Paraíba: Jorge Lacerda, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, José Condé, Marques Rebelo, Mario Pedrosa, Simeão Leal e Odilon Ribeiro Coutinho.

 

Temas desenvolvidos em sua obra:

 

Memória e imaginação.

O regional e o universal.

O provinciano e o cosmopolita.

O ambiente social, a natureza física e o universo psicológico.

O menino e o adulto.

A máquina e a natureza.

Doença, loucura, medo e morte: hipocondria.

Opulência e ruína

Sexo: humano e animal.

 

Posse na Academia Brasileira de Letras: 15 de dezembro de 1956.

 

Em seu discurso de posse, referiu-se ao seu antecessor, o ministro do Supremo Tribunal Federal Ataulfo de Paiva, como alguém que ''chegou à academia sem nunca ter gostado de um poema''. A partir desta nota de sarcasmo, seus discursos da academia passaram a ser previamente censurados. Por conta deste discurso na ABL, rompe relações com Roberto Marinho.

Edição      Enrique Shiguematu

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