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GV CULT - Criatividade e Cultura

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A fortuna crítica de José Lins do Rego

GVcult

21/08/2018 06h42

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

"Lembre-se que o pernambucano (Alvaro Lins) era chamado à época de "o príncipe da crítica".

"… do encontro da dor e do instinto de criação nascem as obras de arte".

Thomas Mann

"O neto de um homem rico tinha inveja dos moleques de bagaceira".

Meus verdes anos

"Todo romance é um caso íntimo que se faz público como um escândalo."

Homens, seres e coisas

Sabemos que a crítica literária e artística é pendular em seus processos de valorização de um autor. Talvez por isto, redescobrem-se obras à primeira vista esquecidas ou retomam-se valores, outrora no ostracismo. Conforme revela o estudioso Bernardo Gersen:

"O entusiasmo pela pintura naïf na França, por volta de 1910, constituiu uma reação vital contra o refinamento fin-de-siècle e o exacerbado intelectualismo então dominante tanto na literatura quanto nas artes plásticas. O público ansiava por recuperar o frescor da visão, por reaver um pouco da inocência."

Quando escrevi o livro "ABC de José Lins do Rego", o propósito era revalorizar o escritor paraibano, deixando de lado as intrincadas teorizações acadêmicas e mostrando às novas gerações o frescor da leitura d'O menino de engenho, como o fizeram seus primeiros leitores, apreciadores e tradutores.

Para tal, procurei acompanhar as peripécias biográficas de um escritor talentoso e irrequieto, cujos escritos se ligam tão intimamente às experiências pessoais e às recordações de infância. Qual imagens em caleidoscópio, ansiei por servir de estímulo para uma nova mirada sobre as milhares de crônicas e as dezenas de romances legadas por nosso escritor, tão apaixonado pelas coisas da vida e do mundo.

Pensei em palavras-chaves para guiar-me e inspirar-me por seu labirinto de letras, quais sejam: Açúcar, Bubu, Carlinhos, Doidinho, Escola do Recife, Fogo Morto, Gilberto Freyre, Histórias da Velha Totônia, Ita do Nor(des)te, José Olympio, Leônidas da Silva, o craque, Memória e imaginação, Naná, Opulência e decadência, Paixão Rubro-Negra, Quixote do Nordeste, Regionalismo e modernismo, Sertanejo é forte, Três Marias, Usina, Viandante, Xilogravuras, Zelinianas.

Claro, a leitura também vale como ensino da dinâmica social de exploração da história social brasileira, típica da estrutura fundiária, que permanece nos atormentando, tornando-se ainda mais aguda, com o surgimento de um fenômeno novo: a miséria. Basta evocar que o cenário, aos olhos de Ricardo, é desolador: "Via os moleques em bando, esfarrapados, pela porta do barracão: 'Seu Ernesto' chamava-os de ratos. Estavam sempre com fome. Viviam de iscas, de restos de comida, de rabo de bacalhau, que sacudiam para eles."

Diante do objetivo de revalorização zeliniana, selecionei a seguir uma antologia de apreciações dos críticos literários que leram o escritor no calor da hora, na esteira das publicações, que ganhavam o fervor do público. Comecemos com Álvaro Lins, que vale quase como uma epígrafe antológica. Lembre-se que o pernambucano era chamado à época de "o príncipe da crítica".

Como ele hoje é desconhecido da maioria dos leitores, reproduzo inicialmente uma citação sua no opulento livro, "A técnica do romance em Marcel Proust", para que se tenha noção de sua perícia analítica.

"Todo o enredo de Le rouge et le noir se encontra num fait divers que Sthendhal leu na Gazette des Tribunaux dos últimos dias de dezembro de 1827, como o de La Chartreuse de Parme foi retirado de velhas crônicas italianas. Contudo, é um elemento necessário na ficção, caso não o tomemos em sentido muito estrito ou convencional. Enredo de romance é a ação das personagens numa ambiência. Ação, no entanto, nem sempre quer dizer uma sucessão de episódios desdobrados no feitio de uma intriga, regular e objetiva. A ação de um romance pode verificar-se exclusivamente como uma projeção da psicologia das personagens em movimento. A essa espécie pertence A la recherche du temps perdu, cuja ação é principalmente uma decorrência da situação psicológica das personagens em cena. Enredo uniforme e sistemático, com toda a urdidura do episódio que atrai outro episódio até um final contundente, não o tem o romance de Proust, nada preocupado com o 'heróico' ou com o ato fulminante para valorizar emocionalmente o desenvolvimento das situações ou os caracteres das personagens. Dado o espírito de narração, que é o de reconstituí-los por uma operação de memória no mesmo plano do passado, grande parte da ação é não raro indireta, não se produz aos olhos do leitor, e dela só tomamos conhecimento por diálogos rememorativos." (p. 139-140)

Apresentado o crítico, vamos acompanhar três das suas referências a Zé Lins:

"… nenhum historiador do futuro poderá prescindir, para o estudo de nossa época, da obra do sr. José Lins do Rego…" (Álvaro Lins, "Memória e imaginação", apresentação à quarta edição de Água-mãe, p. 10, 11 e 14).

*

"Os seus personagens, os seus enredos, o seu ambiente social, a sua memória, a sua imaginação – toda a sua vida é a de um homem que sente a sua terra e tem o destino de exprimi-la literariamente. Vejo que neste objetivo ultrapassa o regionalismo. Pois o seu regionalismo nada tem de uma limitação ou de um círculo fechado. Através do plano regional consegue abrir caminho para o plano nacional e para o plano universal". (Álvaro Lins, "Memória e imaginação", apresentação à quarta edição de Água-mãe, p. 10, 11 e 14).

*

"Sempre o sr. José Lins do Rego perturbará os críticos com a seguinte dualidade: um homem alegre, exuberante, apaixonado da vida até o sensualismo mais frenético; um escritor triste, um romancista que faz reviver personagens desgraçados, que descreve situações comoventes. Na vida real, o rumor das suas gargalhadas; na vida de ficção, um sentimento de lágrimas sufocadas". (Álvaro Lins, crítica escrita para o Correio da Manhã, a 04 de fevereiro de 1944, transcrito na terceira edição de Fogo morto, p. 302)

Após tais menções de Álvaro Lins, vamos aludir a outros pares e contemporâneos do romancista, que recebeu críticas, mas também muitos elogios:

"A rigor não poderemos dissociar da obra de José Lins do Rego a sua figura humana. Quem teve o privilégio de conhecê-lo, reconhece-o a cada passo na leitura de seus romances, sobretudo no estilo, que lhe parece ter guardado o registro da voz. Se bem me recordo, José Lins do Rego não sabia ler em silêncio; seus lábios se movimentavam, repetindo o texto lido, enquanto os olhos faziam o seu ofício, percorrendo rapidamente as linhas impressas. E essa voz se transferia à sua frase escrita, com o mesmo calor, a mesma rusticidade lírica, a mesma fluência prodigiosa." (Josué Montelo, no estudo "O romancista José Lins do Rego", apresentação para as obras completas da editora Aguilar, de 1976)

*

"José Lins do Rego é, sabidamente, um dos escritores mais representativos da geração moderna. Talvez, mesmo, o mais representativo. Sua obra o demonstra exuberantemente. Não sabemos de outra que possa dar, no momento, uma impressão mais incisiva de obra menos escrita. As palavras circulam nela com o mesmo desembaraço do sangue humano no sistema arterial de um corpo adolescente." (Coleção Fortuna Crítica: Eugênio Gomes, p. 263).

*

"O pendor para a introspecção era, em José Lins do Rego, anulado pela incapacidade de solidão. Ele precisava de estar sempre em comunicação com alguém. Bebendo ou comendo com alguém. Ou simplesmente ouvindo alguém falar, rir, fazer rir, contar anedotas. Explica-se assim seu muito convívio, nos seus últimos anos, com Luís Jardim. Sua presença constante na Colombo, no Juca's Bar e, no Recife, na casa de Antiógenes Chaves: uma casa quase sempre em festa." (Coleção Fortuna Crítica: Gilberto Freyre, p. 107).

*

"Ao ler trechos assim interroguei-me várias vezes sobre a natureza do prazer que eles nos proporcionam – a nós outros homens da cidade e do mundo da máquina". (Bernardo Gersen, ao comentar o personagem José Passarinho, em Fogo morto, p. 172)

*

"Sem dúvida alguma, José Lins é um de nossos maiores criadores de personagens…escreve em estado de emoção e só o que sente" (Roberto Alvim Correia, em alusão ao romance Pureza e em específico ao personagem Lourenço, p. 372 e 373)

*

"… o projeto estético-ideológico de Doidinho pode-se definir em relação a essas 'afinidades' e 'disposições': é sublime, como Castro Alves, heroico, como Oliveiros, civilizador, como os pequenos italianos, e 'coruscante', como a voz dos oradores públicos que apaixonava tanto os auditórios populares." (José Maria Arguedas: Los ríos profundos).

*

"O abalo de estruturas de uma sociedade rural aristocratizante, latifundiária e agonizante" (José Aderaldo Castelo, crítico cearense e professor da USP que, no início dos anos 1960 publicou um rico livro sobre o regionalismo e o modernismo na obra de José Lins do Rego).

*

Ainda que breve, a citação acima, de Aderaldo Castelo, é capital para o enquadramento sócio histórico do romance zeliniano. O historiador brasilianista Stuart B. Schwartz, em Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, assevera e ensina:

"Nenhum grupo na história brasileira possui uma aura de legendária magnificência tão marcante quanto a dos senhores de engenho no Nordeste. Ainda que no século XIX fosse proverbial dizer "senhor de engenho, morto de fome, cheio de empenho", esses homens mantiveram-se no ápice da hierarquia social, projetando uma imagem de nobreza, fortuna e poder. Essa imagem sustentou-se em seu permanente controle da terra e dos escravos e no tradicional papel de potentado local que muitos deles encarnaram. Entretanto, os senhores de engenho não são simplesmente um tipo social facilmente transposto de uma época a outra; são também uma classe formada ao longo do tempo, que se desenvolveu historicamente e manifestou diferentes características em datas diversas. Houve, ademais, considerável variação dentro da própria categoria, e assim, conquanto muitos aspirassem a atingir o cume da pirâmide social, apenas uma pequena parcela logrou esse objetivo. Os senhores de engenho ditaram os padrões sociais na colônia e foram os que mais se aproximaram dos modelos vigentes na metrópole. Assim, examinando a composição e o comportamento desse grupo, podemos estabelecer a norma com a qual os demais indivíduos na sociedade eram comparados." (p.224)  

Para fechar este breve texto, sigamos as palavras do próprio Zé Lins ao falar de seu processo criativo:

"…começou a existir em mim uma história; começou a crescer dentro de mim o romance que poderia escrever. Tinha que escrevê-lo. Depois não me contive. A coisa passou a viver com tal força, a estremecer, a desafiar-me, que resolvi levar para diante a tarefa. E o livro saiu, com um mês de trabalho contínuo. A vida dos meus personagens me arrastou violentamente à composição. Tinha que acordar cedo, para estar com eles. Às vezes a preguiça me prometia a paz das manhãs de frio; mas o caderno em branco, a existência, a luta, o amor, o sofrimento da minha gente me chamava. Vinha para eles como se fosse um médico ou um padre, obrigado pelo dever da profissão." (Fortuna Crítica, p. 358)

Antes de terminar, deixo ainda essas 6 sugestões derradeiras, à guisa de leitura complementar:

Adelino Brandão. Cana-de-açúcar. A invenção do Nordeste.

Fernando de Azevedo.  Canaviais e engenhos na vida política brasileira.  

Linda Lewin. Política e parentela na Paraíba.

Gilberto Freyre. Açúcar.

Câmara Cascudo.  Sociologia do açúcar.  

Roberta Barros Meira. Banguês, engenhos centrais e usinas.

"… do encontro da dor e do instinto de criação nascem as obras de arte".

Thomas Mann

"O neto de um homem rico tinha inveja dos moleques de bagaceira".

Meus verdes anos

"Todo romance é um caso íntimo que se faz público como um escândalo."

Homens, seres e coisas

 

Sabemos que a crítica literária e artística é pendular em seus processos de valorização de um autor. Talvez por isto, redescobrem-se obras à primeira vista esquecidas ou retomam-se valores, outrora no ostracismo. Conforme revela o estudioso Bernardo Gersen:

 

"O entusiasmo pela pintura naïf na França, por volta de 1910, constituiu uma reação vital contra o refinamento fin-de-siècle e o exacerbado intelectualismo então dominante tanto na literatura quanto nas artes plásticas. O público ansiava por recuperar o frescor da visão, por reaver um pouco da inocência."

 

Quando escrevi o livro "ABC de José Lins do Rego", o propósito era revalorizar o escritor paraibano, deixando de lado as intrincadas teorizações acadêmicas e mostrando às novas gerações o frescor da leitura d'O menino de engenho, como o fizeram seus primeiros leitores, apreciadores e tradutores.

Para tal, procurei acompanhar as peripécias biográficas de um escritor talentoso e irrequieto, cujos escritos se ligam tão intimamente às experiências pessoais e às recordações de infância. Qual imagens em caleidoscópio, ansiei por servir de estímulo para uma nova mirada sobre as milhares de crônicas e as dezenas de romances legadas por nosso escritor, tão apaixonado pelas coisas da vida e do mundo.

Pensei em palavras-chaves para guiar-me e inspirar-me por seu labirinto de letras, quais sejam: Açúcar, Bubu, Carlinhos, Doidinho, Escola do Recife, Fogo Morto, Gilberto Freyre, Histórias da Velha Totônia, Ita do Nor(des)te, José Olympio, Leônidas da Silva, o craque, Memória e imaginação, Naná, Opulência e decadência, Paixão Rubro-Negra, Quixote do Nordeste, Regionalismo e modernismo, Sertanejo é forte, Três Marias, Usina, Viandante, Xilogravuras, Zelinianas.

Claro, a leitura também vale como ensino da dinâmica social de exploração da história social brasileira, típica da estrutura fundiária, que permanece nos atormentando, tornando-se ainda mais aguda, com o surgimento de um fenômeno novo: a miséria. Basta evocar que o cenário, aos olhos de Ricardo, é desolador: "Via os moleques em bando, esfarrapados, pela porta do barracão: 'Seu Ernesto' chamava-os de ratos. Estavam sempre com fome. Viviam de iscas, de restos de comida, de rabo de bacalhau, que sacudiam para eles."

Diante do objetivo de revalorização zeliniana, selecionei a seguir uma antologia de apreciações dos críticos literários que leram o escritor no calor da hora, na esteira das publicações, que ganhavam o fervor do público. Comecemos com Álvaro Lins, que vale quase como uma epígrafe antológica. Lembre-se que o pernambucano era chamado à época de "o príncipe da crítica".

Como ele hoje é desconhecido da maioria dos leitores, reproduzo inicialmente uma citação sua no opulento livro, "A técnica do romance em Marcel Proust", para que se tenha noção de sua perícia analítica.

 

"Todo o enredo de Le rouge et le noir se encontra num fait divers que Sthendhal leu na Gazette des Tribunaux dos últimos dias de dezembro de 1827, como o de La Chartreuse de Parme foi retirado de velhas crônicas italianas. Contudo, é um elemento necessário na ficção, caso não o tomemos em sentido muito estrito ou convencional. Enredo de romance é a ação das personagens numa ambiência. Ação, no entanto, nem sempre quer dizer uma sucessão de episódios desdobrados no feitio de uma intriga, regular e objetiva. A ação de um romance pode verificar-se exclusivamente como uma projeção da psicologia das personagens em movimento. A essa espécie pertence A la recherche du temps perdu, cuja ação é principalmente uma decorrência da situação psicológica das personagens em cena. Enredo uniforme e sistemático, com toda a urdidura do episódio que atrai outro episódio até um final contundente, não o tem o romance de Proust, nada preocupado com o 'heróico' ou com o ato fulminante para valorizar emocionalmente o desenvolvimento das situações ou os caracteres das personagens. Dado o espírito de narração, que é o de reconstituí-los por uma operação de memória no mesmo plano do passado, grande parte da ação é não raro indireta, não se produz aos olhos do leitor, e dela só tomamos conhecimento por diálogos rememorativos." (p. 139-140)

 

Apresentado o crítico, vamos acompanhar três das suas referências a Zé Lins:

 

"… nenhum historiador do futuro poderá prescindir, para o estudo de nossa época, da obra do sr. José Lins do Rego…" (Álvaro Lins, "Memória e imaginação", apresentação à quarta edição de Água-mãe, p. 10, 11 e 14).

*

"Os seus personagens, os seus enredos, o seu ambiente social, a sua memória, a sua imaginação – toda a sua vida é a de um homem que sente a sua terra e tem o destino de exprimi-la literariamente. Vejo que neste objetivo ultrapassa o regionalismo. Pois o seu regionalismo nada tem de uma limitação ou de um círculo fechado. Através do plano regional consegue abrir caminho para o plano nacional e para o plano universal". (Álvaro Lins, "Memória e imaginação", apresentação à quarta edição de Água-mãe, p. 10, 11 e 14).

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"Sempre o sr. José Lins do Rego perturbará os críticos com a seguinte dualidade: um homem alegre, exuberante, apaixonado da vida até o sensualismo mais frenético; um escritor triste, um romancista que faz reviver personagens desgraçados, que descreve situações comoventes. Na vida real, o rumor das suas gargalhadas; na vida de ficção, um sentimento de lágrimas sufocadas". (Álvaro Lins, crítica escrita para o Correio da Manhã, a 04 de fevereiro de 1944, transcrito na terceira edição de Fogo morto, p. 302)

 

Após tais menções de Álvaro Lins, vamos aludir a outros pares e contemporâneos do romancista, que recebeu críticas, mas também muitos elogios:

 

"A rigor não poderemos dissociar da obra de José Lins do Rego a sua figura humana. Quem teve o privilégio de conhecê-lo, reconhece-o a cada passo na leitura de seus romances, sobretudo no estilo, que lhe parece ter guardado o registro da voz. Se bem me recordo, José Lins do Rego não sabia ler em silêncio; seus lábios se movimentavam, repetindo o texto lido, enquanto os olhos faziam o seu ofício, percorrendo rapidamente as linhas impressas. E essa voz se transferia à sua frase escrita, com o mesmo calor, a mesma rusticidade lírica, a mesma fluência prodigiosa." (Josué Montelo, no estudo "O romancista José Lins do Rego", apresentação para as obras completas da editora Aguilar, de 1976)

*

"José Lins do Rego é, sabidamente, um dos escritores mais representativos da geração moderna. Talvez, mesmo, o mais representativo. Sua obra o demonstra exuberantemente. Não sabemos de outra que possa dar, no momento, uma impressão mais incisiva de obra menos escrita. As palavras circulam nela com o mesmo desembaraço do sangue humano no sistema arterial de um corpo adolescente." (Coleção Fortuna Crítica: Eugênio Gomes, p. 263).

*

"O pendor para a introspecção era, em José Lins do Rego, anulado pela incapacidade de solidão. Ele precisava de estar sempre em comunicação com alguém. Bebendo ou comendo com alguém. Ou simplesmente ouvindo alguém falar, rir, fazer rir, contar anedotas. Explica-se assim seu muito convívio, nos seus últimos anos, com Luís Jardim. Sua presença constante na Colombo, no Juca's Bar e, no Recife, na casa de Antiógenes Chaves: uma casa quase sempre em festa." (Coleção Fortuna Crítica: Gilberto Freyre, p. 107).

*

"Ao ler trechos assim interroguei-me várias vezes sobre a natureza do prazer que eles nos proporcionam – a nós outros homens da cidade e do mundo da máquina". (Bernardo Gersen, ao comentar o personagem José Passarinho, em Fogo morto, p. 172)

*

"Sem dúvida alguma, José Lins é um de nossos maiores criadores de personagens…escreve em estado de emoção e só o que sente" (Roberto Alvim Correia, em alusão ao romance Pureza e em específico ao personagem Lourenço, p. 372 e 373)

*

"… o projeto estético-ideológico de Doidinho pode-se definir em relação a essas 'afinidades' e 'disposições': é sublime, como Castro Alves, heroico, como Oliveiros, civilizador, como os pequenos italianos, e 'coruscante', como a voz dos oradores públicos que apaixonava tanto os auditórios populares." (José Maria Arguedas: Los ríos profundos).

*

"O abalo de estruturas de uma sociedade rural aristocratizante, latifundiária e agonizante" (José Aderaldo Castelo, crítico cearense e professor da USP que, no início dos anos 1960 publicou um rico livro sobre o regionalismo e o modernismo na obra de José Lins do Rego).

*

Ainda que breve, a citação acima, de Aderaldo Castelo, é capital para o enquadramento sócio histórico do romance zeliniano. O historiador brasilianista Stuart B. Schwartz, em Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, assevera e ensina:

"Nenhum grupo na história brasileira possui uma aura de legendária magnificência tão marcante quanto a dos senhores de engenho no Nordeste. Ainda que no século XIX fosse proverbial dizer "senhor de engenho, morto de fome, cheio de empenho", esses homens mantiveram-se no ápice da hierarquia social, projetando uma imagem de nobreza, fortuna e poder. Essa imagem sustentou-se em seu permanente controle da terra e dos escravos e no tradicional papel de potentado local que muitos deles encarnaram. Entretanto, os senhores de engenho não são simplesmente um tipo social facilmente transposto de uma época a outra; são também uma classe formada ao longo do tempo, que se desenvolveu historicamente e manifestou diferentes características em datas diversas. Houve, ademais, considerável variação dentro da própria categoria, e assim, conquanto muitos aspirassem a atingir o cume da pirâmide social, apenas uma pequena parcela logrou esse objetivo. Os senhores de engenho ditaram os padrões sociais na colônia e foram os que mais se aproximaram dos modelos vigentes na metrópole. Assim, examinando a composição e o comportamento desse grupo, podemos estabelecer a norma com a qual os demais indivíduos na sociedade eram comparados." (p.224)

 

Para fechar este breve texto, sigamos as palavras do próprio Zé Lins ao falar de seu processo criativo:

 

"…começou a existir em mim uma história; começou a crescer dentro de mim o romance que poderia escrever. Tinha que escrevê-lo. Depois não me contive. A coisa passou a viver com tal força, a estremecer, a desafiar-me, que resolvi levar para diante a tarefa. E o livro saiu, com um mês de trabalho contínuo. A vida dos meus personagens me arrastou violentamente à composição. Tinha que acordar cedo, para estar com eles. Às vezes a preguiça me prometia a paz das manhãs de frio; mas o caderno em branco, a existência, a luta, o amor, o sofrimento da minha gente me chamava. Vinha para eles como se fosse um médico ou um padre, obrigado pelo dever da profissão." (Fortuna Crítica, p. 358)

 

Antes de terminar, deixo ainda essas 6 sugestões derradeiras, à guisa de leitura complementar:

Adelino Brandão. Cana-de-açúcar. A invenção do Nordeste.

Fernando de Azevedo.  Canaviais e engenhos na vida política brasileira.  

Linda Lewin. Política e parentela na Paraíba.

Gilberto Freyre. Açúcar.

Câmara Cascudo.  Sociologia do açúcar.  

Roberta Barros Meira. Banguês, engenhos centrais e usinas.

 

Edição      Enrique Shiguematu

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.