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GV CULT - Criatividade e Cultura

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A trajetória jornalístico-literária de José Lins do Rego (I)

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26/06/2018 06h52

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

"Tornou-se por fim amigo da cearense Rachel de Queiroz…"

José Lins do Rego nasceu em um engenho açucareiro, no ano de 1901, no interior da Paraíba, região da zona da mata paraibana. Como Joaquim Nabuco, Sílvio Romero e Augusto dos Anjos, foi menino de engenho até os oito anos de idade. Quando tinha 4 anos, sua mãe faleceu. Foi neste momento afastado do convívio do pai, considerado mentecapto pela família. Cresceu sob os cuidados das tias maternas, em diversos engenhos familiares, que ficavam sob a guarda geral do avô, o afamado e temido coronel José Paulino. O avô era um típico latifundiário de terras de monocultura da cana de açúcar, então em decadência: dono de oito engenhos contíguos, preservados graças à estratégia de casamento entre primos e primas. Segundo descrição do neto, o coronel tinha as características básicas de um patriarca descrito em dicção freyreana: era, ao mesmo tempo, autoritário e bondoso com os empregados.

José Lins cresceu então nesse ambiente rural de amplidão de terras e de liberdade infanto-juvenil, em meio aos banhos de rio, aos animais de estimação (carneiros e passarinhos), às brincadeiras com os moleques de bagaceira, filhos das empregadas de origem africana, algumas delas remanescentes da escravidão na primeira década do século XX. Conviveu também com os trabalhadores locais, especialistas no fabrico do açúcar, além de personagens populares, como senhoras contadoras de história, cegos trovadores e até cangaceiros históricos, como Antônio Silvino. Ia para a cidade nos fins de semana, aonde assistia às missas. Passava férias nas cidades nordestinas, em casa de familiares, ora em Recife ora na capital paraibana.

Com nove anos de idade, Zé Lins foi para o colégio interno em uma cidade próxima ao engenho, onde guarda as duras lembranças: a solidão, a crueldade dos colegas e o autoritarismo do professor. Passava férias no engenho do avô. Já adolescente foi estudar em colégio religioso na capital da Paraíba, de formação marista. Na capital pernambucana, estudou no Ginásio Pernambucano, por onde passaram nomes importantes da cultura brasileira: Celso Furtado, Clarice Lispector, Ariano Suassuna, Paulo Freire, entre outros. Despertou seu interesse pela literatura na escola, lendo romancistas nacionais e estrangeiros. Em Recife, com 18 anos começou a escrever na imprensa sobre Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, além de panfletos políticos. Substituiu Barbosa Lima Sobrinho, transferido para o Rio, em sua coluna do Diário de Pernambuco.

No final da década de 1910, ingressou na Faculdade de Recife, onde fez várias amizades. Teve vida boêmia, viveu em República e dividiu quarto com o gaúcho Raul Bopp, futuro poeta modernista, aluno da Faculdade de Direito de São Paulo, mas que passara o último ano em Recife, antes de ir para a Amazônia. Zé Lins se autodescreve como aluno medíocre, mas acentua que gostava à época da oratória e dos discursos empolados, típicos da retórica bacharelesca.

Logo depois de formado, conheceu Gilberto Freyre, recém-chegado dos Estados Unidos e da Europa, onde vivera por 5 anos. Amizade à primeira vista, Freyre revelou romancistas ingleses e uma erudição de scholar que encantou José Lins. Conviveram intensamente durante um ano. Faziam passeios por Recife e Olinda, reconhecendo suas marcas coloniais, sobrados, culinária afro-portuguesa. Viajaram juntos atrás de engenhos de fogo morto por Paraíba e Pernambuco. Mantiveram contato depois em congressos (Manifesto Regionalista, Congresso Afro-Brasileiro), no Rio de Janeiro e através de correspondências.

Ao fim da formação bacharelesca, conheceu, numa estação de trem, Philomena Massa, com que casaria em 1924. Naná era filha de Antônio Massa, um senador da Primeira República, quem lhe conseguiu um emprego público no interior de Minas Gerais, onde não ficou mais de um ano. Em sua volta ao Nordeste, radicou-se por quase dez anos, entre 1926 e 1935, onde passa a trabalhar como fiscal de consumo. Teve três filhas e graças à sua reputação de crítico literário em Recife, foi cercado de reverência em Maceió por uma nova geração de escritores.

Nos cafés da capital alagoana, reuniu em torno de si novatos como Aurélio Buarque de Holanda e Manuel Diegues Júnior. Fez-se mestre do poeta Jorge de Lima, sobre quem influiu na transição do parnasianismo para o modernismo. Em companhia do governador de Alagoas da época, foi até a cidadezinha de Palmeira dos Índios e lá conheceu Graciliano Ramos, sobre quem se dizia ser "o homem mais erudito de todo o sertão".

Tornou-se por fim amigo da cearense Rachel de Queiroz, que estreia na ficção em 1930 com O Quinze, premiado pela Fundação Graça Aranha, de São Paulo, no ano seguinte. Em 1928, José Américo de Almeida já publicara A bagaceira, marco no romance social nordestino.

Já estabelecido como jornalista e como crítico literário, José Lins inicia em 1931 um livro que pretendia ser uma biografia do avô, com o nome de Memórias de um menino de engenho. No curso da escrita, o texto biográfico tornou-se uma ficção e, custeada pelo próprio autor, é publicada em 1932 a novela Menino de engenho. A recepção não poderia ser melhor: apesar de críticas a passagens libidinosas e até pornográficas, o romance estoura e se esgota rapidamente. O tarimbado filólogo e membro da ABL, João Ribeiro, escreve crítica elogiosa no Jornal do Brasil e entrevê elementos freudianos na narrativa…

A família paulista dos Prado é muito importante na consagração de José Lins do Rego. Graças a essa estirpe, responsável pela criação da Fundação Graça Aranha, a novela Menino de Engenho é premiada no ano seguinte, 1933, o que estimula José Lins a escrever outro romance. Passa a se corresponder com o historiador Yan de Almeida Prado. Além disto, Paulo Prado, mecenas da Semana de Arte Moderna de 1922, volta a fortalecer as relações com o Nordeste de seu amigo Capistrano de Abreu. O autor de Retrato do Brasil apresenta Menino de engenho a Blaise Cendrars, o vanguardista franco-suíço que viajara a Minas Gerais com os modernistas em 1924. Prado classifica José Lins como "o nosso Proust" e décadas depois o romance será traduzido para o francês como L'enfant de la plantation, com prefácio de Cendrars.

Todo esse reconhecimento culmina em 1934, quando o editor José Olympio convida José Lins para publicar sob a chancela de sua editora, recém-transferida para o Rio de Janeiro, aquele que seria seu terceiro romance, Banguê, em uma tiragem de cinco mil exemplares. No ano seguinte, 1935, atraído pelo sucesso, José Lins resolve se transferir junto com a família para o Rio de Janeiro. Para tanto, consegue a transferência de seu posto de trabalho, agora como fiscal de imposto no Estado do Rio de Janeiro.

A afirmação de José Lins na capital da República vai passar pela publicação contínua de romances e pela sua presença diária na Livraria José Olympio, em ponto estratégico do centro da cidade, a Rua do Ouvidor. Neste ambiente, vai criar um grande circuito de relações sociais e de amizades. Entre 1935 e 1939, publica com regularidade um romance por ano, dando origem ao Ciclo da Cana de Açúcar e ao Ciclo do Cangaço, do Misticismo e da Seca.

José Lins mora na zonal sul do Rio. Primeiro no bairro de Botafogo, depois no Humaitá – onde vai acolher Graciliano Ramos, quando este é liberado da prisão do Estado Novo, em Ilha Grande – e, por fim, no Jardim Botânico, em uma casa construída próxima à Lagoa, onde vai residir até o final da vida.

Em função de seu trabalho, pega com frequência as barcas, para prestar serviços em Niterói. É deslocado para o interior do Estado, onde faz inspeção em Cabo Frio, Araruama e Vassouras. Em 1941, publica Água-mãe, inspirado em sua residência na Região dos Lagos. Para fugir à pecha de escritor regionalista, em 1947 publica um romance com temática urbana, centrado na cidade do Rio, Eurídice.

Já a década seguinte assinala uma mudança. Os romances se tornam menos frequentes, escasseiam, por assim dizer, e as crônicas em jornais, até então esporádicas, se tornam regulares. Antologias de crônicas começam a ser publicadas, com a reunião de textos antigos, da sua época do Nordeste, tal como Gordos e magros, de 1942, e Poesia e vida, de 1945.

Em 1943, José Lins publica sua obra-prima, Fogo morto. Neste mesmo ano, é contratado por Roberto Marinho para trabalhar em O Globo e pelo conterrâneo, Assis Chateaubriand, para escrever em O Jornal e na revista O Cruzeiro, onde publica, sob a forma de folhetins, o romance Os cangaceiros, ilustrado por Cândido Portinari. Dois anos depois, em 1945, recebe convite de Mário Filho, que conhecera em O Globo, para assinar a coluna Esporte e vida, no Jornal dos Sports.

Na seção da próxima quinzena, aprofundaremos a relação de José Lins do Rego com a colaboração jornalística nos periódicos do Rio de Janeiro.

Edição      Enrique Shiguematu

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.