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As viagens de José Lins do Rego

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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''José Lins chegou a traduzir um livro sobre a personagem (Eleonora Duse)…''

Na apresentação do livro póstumo O vulcão e a fonte (1958), seleção de crônicas do escritor e amigo José Lins do Rego, o acadêmico Ledo Ivo exprime com sapiência:

 

“O viajar de José Lins do Rego revigora a sua condição de clássico da língua, colocando-o ao lado de outros brasileiros que souberam ver a diversidade do mundo, como Joaquim Nabuco e Oliveira Lima, Eduardo Prado e Alceu Amoroso Lima, Ribeiro Couto e Érico Veríssimo. É o andar e flanar de viajantes que não ficaram encerrados nos quartos de hotéis ou sitiados pela algaravia dos seminários e congressos literários ou científicos, e souberam respirar o ar estrangeiro. E, depois, guardar essa respiração e convertê-la em visões e estampas iluminadas”.

Destarte, mais do que a descrição de um repórter comum ou de um turista passageiros – turistas a quem o romancista chamava de basbaques, como também o fez Graciliano Ramos em seu diário de bordo, publicado no livro Viagem: Tchecoslováquia e URSS (1952) ─, o que se nota é uma série de reflexões livres e de pensamentos esparsos. Estes aproximam as crônicas de viagem de José Lins do Rego ao gênero do ensaio. Gênero que, desenvolvido por Montaigne, encontrou grande receptividade entre ingleses e espanhóis, ensaístas estes muito apreciados por José Lins do Rego, como Miguel de Unamuno, Ganivet e Azorin.

Se as fontes da literatura hispânica e anglo-saxônica foram legadas a José Lins do Rego pela influência de Gilberto Freyre, como propôs a socióloga Elide Rugai Bastos, a afinidade eletiva entre a crônica de viagem e o ensaio é vislumbrada da mesma forma em relação ao romancista paraibano. Novamente é o poeta Ledo Ivo quem observa com acuidade:

 

“A essa visão das coisas e dos seres, José Lins do Rego soube dar o indispensável rendimento criativo, em suas várias matizações, fosse uma cheia do Paraíba ou um templo numa colina ateniense. Bota de sete léguas e Gregos e Troianos, marcados pelo teor do monólogo andejo, dada a condição de livros de viagens, participam também da natureza ensaística, tal como a narrativa que Montaigne fez de sua viagem à Itália e à Suíça, ou as deambulações dos ingleses em geral. Eles iluminam a mais larga etapa de José Lins do Rego, para quem as viagens eram lições, ciclos de aprendizagem, labor humanístico, e mostram como esse espírito ‘terrien’ dispunha de uma sensibilidade porosa ao repertório estrangeiro.”

 No período em que se radica no Rio de Janeiro, entre 1935 e 1957, apogeu da sua maturidade artística e intelectual, José Lins do Rego repisa as suas concepções de arte regional e arte universal, de identidade nacional e alma popular, de tradição e modernidade, de cosmopolitismo e provincianismo. Desfaz-se o provinciano e avulta o viajante cosmopolita. Isto se manifesta no início dos anos 1950 com Bota de sete léguas: o nome da obra é alusivo a uma clássica história infantil, o Pequeno Polegar, personagem folclórico que, para fugir de um ogro, vale-se dos calçados mágicos. As botas o fazem escapar do monstro perseguidor com rapidez, podendo assim partir pelo mundo afora.

Ainda naquele decênio, José Lins publica o opúsculo Roteiro de Israel. O elogio ao povo judeu se dá de duas maneiras: o reconhecimento da presença da História naquelas terras, com todo o peso da tradição; e o reconhecimento de uma nação moderna, e ainda tão jovem, se ajustar rapidamente aos novos ritmos do progresso:

 

“Deixamos o aeroporto nas proximidades de Tel-Aviv para a subida a Jerusalém. O céu é o mais azul que já vi, e as primeiras terras, verdes, cobertas de laranjais. Vamos caminhando para as raízes da nossa fé, para a cidade que fora escolhida para a primeira capital de Deus.

Há mais de dois mil anos que sobre Jerusalém caíram as fúrias do destino. Por aqui passaram os gregos, as legiões romanas de Tito, os exércitos das Cruzadas, as hostes muçulmanas. Até as pedras choraram e de tanto chorar foram ficando em cima da terra como lágrimas cristalizadas. Pedras sobre pedras. Nem um pedaço de solo para o arado das searas de Booz.

 

Mas o homem de 1949 voltou a Jerusalém para corrigir as desgraças dos tempos. Então o gênio agrícola dos mestres agrônomos de Israel pegou da realidade brutal  e se pôs a agir dominando os elementos. Pedras foram arrancadas e, através de plataformas furadas no dorso duro da serra, conseguiram os técnicos restabelecer a fecundação. Vinhais e laranjais se grudam aos rochedos como se fossem acrobatas de circo. E lá ficaram plantadas para o nosso assombro. A água se espalha pelos canos em esguichos que rodam no ar,”

 

Suas viagens também ocorrem em função do futebol, uma vez que era torcedor, cronista e dirigente esportivo. Depois de atuar em pequenas cidades suecas, próximas ao mar Báltico, o time do Flamengo segue para Dinamarca, França e Portugal, acompanhado por Zé Lins, chefe de delegação, a fim de disputar outros amistosos, em um total de dez partidas, das quais vence a maioria. Isto contribui para aumentar ainda mais a fama dos brasileiros, já então conhecidos como os “reis do futebol”, “os maiores do mundo”, com dotes malabarísticos e acrobáticos em seus desempenhos com a bola.

Nesse périplo, que passava por Portugal, aproveitou a passagem para um almoço literário. O escritor lusitano Miguel Torga (1907-1995), por exemplo, foi quem fez o discurso de saudação a José Lins, quando este se encontrava em Coimbra. O autor de Criação do mundo discursou de maneira emocionada e falou do romancista brasileiro como uma forma mais ampla de ressaltar os laços de união afetiva entre Brasil e Portugal:

 

“Temos entre nós, sentado à mesa da pequena casa lusitana, José Lins do Rego, que na companhia de um punhado de jogadores do Flamengo atravessou o Atlântico. Na adulta consciência de um dos seus maiores escritores, e na destreza lúcida da sua mocidade, visita-nos a descomunal grandeza do Brasil, durante séculos a levedar, e finalmente a florir.”

Por fim, cabe pontuar que o escritor também se interessou por personalidades que gostavam de viajar. Foi o caso da atriz italiana Eleonora Duse (1858-1924) que, residente nos Estados Unidos, visitou o Brasil no início do século XX, em uma de suas turnês à América do Sul. José Lins chegou a traduzir um livro sobre a personagem para a editora José Olympio. No prólogo de abertura, discorre sobre a situação trágica da atriz:

 

“Ela, que despertava com tanta veemência amor nos outros, não podia amar. A sua voz, que era de um canto de veludo, era para todos. Teria que se dar, da cabeça aos pés: havia um público, que queria mais. Sofreu muito, abafou com as mãos magras os gemidos que lhe vinham do peito. Foi desprezada, foi cuspida pelo desprezo do poeta cruel, foi ultrajada. Mas tanta miséria não lhe secou a alma, sempre sensível à dor da humanidade. Quando, no palco, representava a dor de uma personagem, era ela mesma que era a dor; ela vivia a sua própria vida”.

Edição      Enrique Shiguematu

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