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GV CULT - Criatividade e Cultura

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José Lins do Rego em família

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03/04/2018 06h48

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

"… de um lado, uma calorosa passionalidade, que o irmana aos demais seres, aos homens comuns; de outro, uma humildade, por assim dizer, cristã."

"Um barão assinalado
sem brasão, sem gume e fama
cumpre apenas o seu fado:
amar, louvar sua dama,
dia e noite navegar,
que é de aquém e de além-mar
a ilha que busca e amor que ama".

(Jorge de Lima, A invenção de Orfeu)

 

 

José Lins do Rego foi casado com Philomena Massa, que conheceu de modo fortuito aos dezoito anos de idade (1919), num vagão de trem indo à capital da Paraíba. Philomena era filha de um político nordestino, o senador Antônio Massa. Este, de acordo com prática comum na história brasileira, valeu-se de sua posição e de seu status político para dar proteção ao futuro escritor. Massa conseguiu, para o genro recém-formado, um emprego público no aparelho jurídico do Estado. A seguir, nomeou-o no Ministério da Justiça. Esta nomeação foi seguida no ano de 1925 pela viabilização de uma transferência para a promotoria pública de uma pequena cidade de Minas Gerais, Manhuaçu. Nesta, ficou por pouco tempo, até retornar novamente ao Nordeste, desta vez à capital alagoana, Maceió.

Nessa cidade, viveu uma década, entre 1926 e 1935, onde ganhou projeção como crítico literário e teve três filhas: Maria Elisabeth, Maria da Glória e Maria Christina. Em 1935, Zé Lins foi nomeado para fiscal do imposto de consumo do estado do Rio de Janeiro e na capital do Rio fixou residência. Depois de morar nos bairros de Botafogo e do Humaitá, construiu uma casa no Jardim Botânico, perto da Lagoa Rodrigo de Freitas, mais precisamente na rua General Garzon.

A casa da zona sul gozava de uma espécie de personalidade própria, todos a tratavam pela alcunha de "o Garzon" e ficava sempre aberta para receber os amigos de José Lins, como Thiago de Melo, Octávio Tarquínio de Souza e os irmãos Condé, em rodas de violão na entrada da casa ou em jantares organizados por Naná, apelido caseiro de Philomena. Isto sem contar as reuniões costumeiras em família, tal como singelamente recorda a filha caçula, também escritora: "… os almoços de domingo, papai sempre servido em primeiro lugar pela minha mãe, que lhe preparava cosidos maravilhosos, galinha gorda com pirão, as famosas fritadas de camarão, e depois a espera da carona do Mario Filho, que vinha sempre buscá-lo para o futebol".

Assim como a construção, a casa do Jardim Botânico, em frente ao Jockey Club da Lagoa, foi montada e mobiliada aos poucos. Novamente é a filha mais nova, Maria Christina, que considerava a casa ora um castelo ora uma réplica do engenho, com seu cheiro de comida inesquecível, quem conta sobre a decoração do lar, feita pela mãe Naná:

 

"Mamãe tinha um ótimo gosto, mandou buscar o sofá de palhinha com as quatro cadeiras de jacarandá do engenho, mobília remanescente que ficara guardada em casa de parentes — com eles vieram também o lampião de opalina azul com a Nossa Senhora da Conceição, padroeira do meu pai. Santa Rosa, que ilustrava os livros de meu pai, fora enviado a copiar a sala de jantar que estava na vitrine da Leandro Martins, fez um croqui perfeito, lindo, que mandaram executar pela metade do preço no Catete. Os quadros iam chegando e era papai mesmo quem os pendurava: os Di Cavalcanti, Portinari, Guignard, os Cíceros com a sua fase poética, belíssimos, o menino azul do Dacosta, mas eu adorava ficar olhando a menina no orfanato vestida de uniforme bordeaux segurando uma carta. Aquele quadro do Cícero me tocava profundamente."

Sobre os afazeres domésticos, e o cotidiano da mãe no dia a dia da Garzon, é também Christina quem narra:

 

"Minha mãe era uma boa católica, não de ir à missa, mas não perdia sua feira dos domingos. Voltava com um carregador levando na cabeça um cesto enorme que vinha cheio de frutas, legumes e flores para enfeitar o Garzon. Quando chegava fazia cestos de frutas e legumes lindos enfeitando a cozinha, na sala colocava sempre no jarro que meu pai trouxera de Portugal, as flores mais bonitas que encontrasse".

No final da vida, após o falecimento de José Lins, a relação de Naná com a casa do Jardim Botânico se estreitou ainda mais. É ainda a caçula Christina, afilhada de Olívio Montenegro, quem recorda: "Com o desaparecimento do nosso pai, minha mãe continuou firme morando no Garzon. Com o dinheiro que ganhou na Loteria Esportiva, mandou pintar toda a casa. E todo o dinheiro que entrava dos livros de meu pai era para melhorar o Garzon. (…) morreu minha mãe amando o Garzon até os seus últimos momentos de lucidez. E hoje, quando passo pela nossa casa, procuro não olhar nem para a esquina, não consigo sentir mais nada. É como se sua alma tivesse partido com minha mãe".

Em 1947, aos quarenta e seis anos, José Lins do Rego deu um depoimento a um jornal carioca, logo após a publicação de Eurídice, seu undécimo e penúltimo romance: "Não gosto de trabalhar, não fumo, durmo com muitos sonos e já escrevi 11 romances. Se chove, tenho saudades do sol; se faz calor, tenho saudades da chuva. Temo os poderes de Deus, e fui devoto de Nossa Senhora da Conceição. Enfim, literato da cabeça aos pés, amigo dos meus amigos e capaz de tudo se me pisarem nos calos. Perco então a cabeça e fico ridículo. Afinal de contas, sou um homem como os outros e Deus permita que assim continue".

No autorretrato do escritor, já consagrado pela crítica e pelo público, observa-se um traço recorrente nas ocasiões em que fala de si: a ênfase no seu lado humano, terra-a-terra, na sua condição de simples mortal. Queria com isto, parece não muito difícil perceber, afastar-se da tradicional imagem do escritor como um indivíduo frio e esnobe, dotado de "alta" cultura, alguém enfim encastelado nas redomas da arte e nas elucubrações do intelecto, em nome de um culto artificial que dificilmente o faz descer da torre de marfim.

Nas diversas vezes em que aborda a própria personalidade, José Lins do Rego enfatiza, com insistência, sua posição diametralmente oposta à desse tipo de literato de gabinete. Em verdade, trata-se de um duplo acento: de um lado, uma calorosa passionalidade, que o irmana aos demais seres, aos homens comuns; de outro, uma humildade, por assim dizer, cristã. Ambas atravessam de ponta a ponta o espelho idealizado e construído ao longo da vida pelo próprio escritor. É o romancista da palavra direta e espontânea, é o cronista sem papas na língua, que gostava de evocar com frequência a filosofia de Montaigne: "le parler que j'aime c'est un parler simple e naïf, tel sur le papier qu'à la bouche".

A escrita almeja desse modo se confundir com o tom coloquial mais chão, que advém do contato popular, reproduzindo na letra impressa a voz das ruas, o burburinho das esquinas, o fuzuê dos estádios de futebol. Isto explica talvez o fato de o autor ter assinado durante anos uma coluna de jornal com o nome de "Conversa de Lotação".  "O estilo é o homem", dizia Buffon, e José Lins do Rego parece ter querido seguir à risca o aforismo, fazendo da simplicidade franciscana, da comunhão com a natureza e da impressão imediata das coisas a sua profissão de fé.

Edição      Enrique Shiguematu

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.