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GV CULT - Criatividade e Cultura

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A literatura estadunidense, a crise financeira de 1929 e o Brasil

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20/03/2018 06h24

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

"À revelia da doutrina liberal, o novo presidente eleito, Franklin Delano Roosevelt, implantou os "Cem Primeiros Dias", programa emergencial no auge da Grande Depressão" Obra de William Sommer. Fonte: goo.gl/Ge5TfN

Até a Grande Guerra (1914-1918), acreditava-se que as potências europeias eram capazes de conduzir o mundo a partir de uma ótica imperial que se expandia desde a Europa. A imposição da supremacia dos Impérios europeus, alguns deles recém-unificados, fazia com que os últimos quadrantes do globo fossem dominados, em uma concorrência crescente por matérias-primas, territórios e mercados consumidores. A eclosão da que passou a ser chamada de Primeira Guerra mundial modificou essa percepção e, sobretudo, esse otimismo.

Depois da experiência bélica traumática, a crítica à racionalidade passou a ser veiculada também entre teorias cientificistas, em especial aquelas referentes à mente e ao comportamento humano, como a formulada por Sigmund Freud. Desde a publicação de A interpretação dos sonhos, em 1900, o fundador da psicanálise colocava em evidência as zonas sombrias da razão e revelava dimensões menos cômodas a respeito do ser humano, como o inconsciente, a histeria e a pulsão de morte.

O psicanalista reconhecia a existência de impulsos eróticos e tanáticos no homem, isto é, aqueles que direcionam o ser tanto para o amor quanto para a morte, tanto para a construção e preservação quanto para a destruição. É ainda no contexto da Primeira Guerra que o mesmo Freud troca correspondências com outro cientista, o físico Albert Einstein, com a pergunta carregada de perplexidade: Por que a guerra?

No decorrer do século passado, essas percepções se estenderam da ciência ao plano das artes. Na Espanha da Guerra Civil, o quadro do pintor espanhol Pablo Picasso, Guernica, talvez seja o mais emblemático dos efeitos perturbadores causados aos sentidos pelo genocídio das guerras.

Nos Estados Unidos, embora as guerras não tenham afetado seu território diretamente, uma crise viria a abalar suas estruturas e representações. O "modo de vida americano" – American way of life – vinha sendo propagado pela popularização de diversas imagens desde o início do século XX: o automóvel e a linha de montagem Ford; as casas de veraneio; a indústria do cinema – os estúdios de Hollywood, na Califórnia; os ídolos do star system – a começar pelo ator Rodolfo Valentino; e o uso de eletrodomésticos. O estilo de vida norte-americano se difundia não apenas na Europa, mas na América Latina, em particular no Brasil.

O discurso liberal dos Estados Unidos não impediu que suas ações internas no imediato pós-guerra fossem protecionistas. Em substituição ao livre-comércio praticado até 1914, o protecionismo foi uma das molas mestras da economia global. A subida de preço dos produtos industrializados – nos anos 1920, os EUA detinham metade da produção industrial no mundo – tentou contrabalançar os desequilíbrios econômicos internacionais, gerados pela permanência de altas taxas de desemprego, pela persistência da inflação e pela desvalorização monetária.

Em 1929, o surpreendente desabamento do valor das ações atingiu em poucos dias todos os bancos dos Estados Unidos, gerou a superprodução nacional, paralisou as vendas e faliu empresas sem discriminação, de pequenos autônomos a grandes magnatas. Seu choque se estendeu à economia como um todo, teve um efeito "dominó" sobre a política econômica mundial e desmantelou o arranjo das finanças no mundo inteiro.

Ato contínuo, a retração da demanda fez diminuir a produção, o que provocou demissões em massa nas fábricas norte-americanas, a ponto de, em 1932, cerca de 25% da população estadunidense se encontrar desempregada. A próspera nação defrontou-se então com as consequências perversas do colapso de seu sistema: fome, extrema pobreza, péssimas condições de moradia e migrações forçadas.

Tal fato afetou a própria literatura estadunidense então propagada e indignou o jovem escritor John Steinbeck (1902-1968). Passada uma década do craque da bolsa, em 1939, o Prêmio Nobel da Literatura publicou As vinhas da ira, ficção que narra a migração de fazendeiros do estado de Oklahoma para a Califórnia, empobrecidos pela crise e pela seca. Eis um trecho da pungente e indignada narrativa:

 

"Um milhão de pessoas famintas, precisando das frutas – e querosene derramado sobre as montanhas douradas. E o cheiro de podre invade o país (…) Há aqui um crime que vai além da denúncia. Há aqui uma dor que o pranto não consegue simbolizar. Há aqui uma derrota que aniquila todas as nossas vitórias. Terra fértil, árvores enfileiradas, troncos sólidos e frutas maduras. E crianças vitimadas pela pelagra devem morrer e cada laranja deve dar lucro. E os legistas devem preencher seus atestados – morte por desnutrição – porque o alimento precisa apodrecer, deve ser forçado a apodrecer. As pessoas chegam com redes para pescar as batatas nos rios e os guardas as impedem; chegam em carros barulhentos para apanhar as laranjas jogadas fora, mas o querosene é pulverizado. E elas ficam paradas vendo boiarem as batatas, ouvindo os guinchos dos porcos sendo mortos numa vala e cobertos com cal virgem, olhando para as montanhas de laranjas transformando-se em lama podre; e nos olhos das pessoas há derrota; e nos olhos dos famintos, há uma ira crescente. Nas almas das pessoas, as vinhas da ira incham e amadurecem, anunciando as próximas colheitas."

À revelia da doutrina liberal, o novo presidente eleito, Franklin Delano Roosevelt, implantou os "Cem Primeiros Dias", programa emergencial no auge da Grande Depressão, que concedeu dotação de crédito para os bancos, salário-desemprego e frentes de trabalho. Além disto, instituiu as leis sociais que garantiram a aposentadoria, a indenização de desempregados e a preservação dos sindicatos. As obras de infraestrutura também permitiram o reaquecimento econômico, com reformas feitas, por exemplo, no vale do estado do Tennessee.

No Brasil, também assolado pelo crash da bolsa nova-iorquina, as distâncias entre seu presidente Vargas e o equivalente norte-americano se ampliavam no tocante à configuração institucional dos governos, fruto das grandes diferenças de dinâmica política republicana. Durante os anos 1930 e 1940, o Brasil assiste a um reordenamento do pacto oligárquico estabelecido desde a implantação da República, no final do século XIX. Com o apoio de elites dissidentes, Vargas ascende ao posto máximo da nação em 1930 – o mesmo fora presidente do estado do Rio Grande do Sul anos antes – e nele vai perdurar por quinze anos, até 1945. Durante todo esse tempo, seu mandato conheceu três arranjos institucionais: um processo revolucionário (1930-1934), um governo constitucional (1934-1937) e um regime ditatorial (1937-1945), com um golpe que leva à implantação do Estado Novo.    

Em contraposição aos princípios do federalismo republicano, inspirado no modelo norte-americano e vigente desde o fim da Monarquia, a Era Vargas diminui a autonomia política dos estados e das oligarquias da República Velha. Interventores são nomeados pelo presidente e passam a fazer as vezes de governadores. Por via de consequência, as intervenções reforçam o poder centralizador do chefe da nação. Os laivos ditatoriais do governo Vargas, que se institucionalizaram com a implantação do Estado Novo em 1937, associando-o à imagem totalitária, não deixaram de ter um caráter progressista. Uma série de medidas foi legitimada na constituição, com a garantia dos direitos sociais – jornada de 40 horas, voto feminino, aposentadoria, plano de saúde, legalização dos sindicatos, etc. – até então desconhecidos pelos trabalhadores.             

É do jornalista Barbosa Lima Sobrinho a análise crítica da conjuntura de então e do tradicional posicionamento brasileiro:

"O Brasil sempre acreditou que fosse o centro de um sistema planetário, quando na verdade não estávamos muito longe das contingências de uma economia subsidiária ou dependente, arrastada na cauda de cometas impetuosos. Não chegávamos a ser originais nem mesmo no surto das correntes nacionalistas, que vinham copiadas do estrangeiro, como a reação anti-italiana que surgiu em São Paulo, em oposição aos núcleos das Sociedades Dante Alighieri, mas terminando, paradoxalmente, em apoio ao Fascismo, que iria valorizar esses movimentos de irredentismo italiano. Para se sentir até onde chegou essa agitação nacionalista e como na verdade derivava de tendências espúrias, basta considerar que se polarizou num anti-semitismo de importação e numa guerra ao imperialismo britânico, que a essa época deixa de existir ou passara aos norte-americanos a faixa, de que haviam sido detentores por mais de um século de domínio universal. Um país que chega a importar o nacionalismo está ainda muito longe das soluções que na verdade lhe convêm."

A turbulência prossegue e, em 1935, ocorre na capital da República a Intentona Comunista, tentativa de tomada do poder através de um golpe, com o plano de tomada de quartéis no Nordeste. A iniciativa vai ser dada por correligionários do capitão Luís Carlos Prestes, líder tenentista, recém-convertido ao comunismo. À direita, no outro extremo ideológico, encontravam-se os integralistas, corrente partidária inspirada nos regimes conservadores que, sob a liderança intelectual de Plínio Salgado, também tentariam, por intermédio de táticas golpistas, a derrubada de Vargas.

Com ambas as sublevações debeladas, o regime varguista sufocou a democracia e impediu as ambições eleitorais de José Américo de Almeida e Armando Sales de Oliveira. Instaurou-se o Estado Novo em 1937, que perduraria oito anos, e só findaria em 1945, com o fim da Segunda Guerra mundial.  

Edição      Enrique Shiguematu

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.