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GV CULT - Criatividade e Cultura

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O cangaço e a literatura sertaneja

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06/03/2018 05h01

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

"A figura do cangaceiro impressionou não apenas personalidades da cultura brasileira. O cangaço se tornaria conhecido em âmbito internacional." Obra de Aldemir Martins

"Mas quem podia com o cangaceiro que mandava

por todo o interior do Estado, como um governo?"

Fogo morto, de José Lins do Rego

"Os jagunços lutaram/até o final/

defendendo Canudos/

naquela guerra fatal"

samba-enredo da escola de samba

Em Cima da Hora (1976)

Quando tinha 17 anos, Glauber Rocha, futuro cineasta, leu com afinco o conjunto da obra dos escritores nordestinos. Euclides da Cunha, José Lins do Rego e Graciliano Ramos figuravam entre seus preferido. Anos mais tarde, iria compor a alegoria cinematográfica do sertão-mar: "o sertão vai virar mar/e o mar virar sertão", prédica milenarista cantada na voz do músico Sérgio Ricardo, ao final do filme. Nele os protagonistas, Manuel e Rosa, batem em retirada do cangaço, para encontrar o litoral, na cena de encerramento, ao som da sinfonia trágica de Villa-Lobos.

A figura do cangaceiro impressionou não apenas personalidades da cultura brasileira. O cangaço se tornaria conhecido em âmbito internacional. Para o historiador inglês Eric Hobsbawm, por exemplo, no livro "Rebeldes primitivos" (1959), os cangaceiros eram afinal "heróis ambíguos".

Já o sociólogo pernambucano Souza Barros combinava algumas dessas hipóteses na tentativa de esclarecer a realidade social sertaneja. A seu ver, o isolamento e a falta de poder público eram os principais responsáveis por aquele desregramento e anomia:

"O Sertão continuava quase isolado e até mesmo funcionários públicos, nomeados para o oeste do Estado, ainda eram obrigados a viajar pela Bahia e entrar por Petrolina. O banditismo campeava, resultado de uma péssima distribuição de justiça e de um poder de polícia omisso. A ausência de estrutura do Estado gerara o poder dos 'coronéis', o arbítrio, a luta entre os próprios 'coronéis' e as suas gangues e o uso do cangaceiro como um elemento persuasivo ou mesmo necessário para encobrir a responsabilidade de certos desfechos ou soluções de demandas e de luta entre grandes famílias. (…) No Sertão, as obras contra as Secas faziam os grandes açudes, desapropriando apenas a área de inundação e deixando esses 'elefantes brancos' dentro dos latifúndios dos 'coronéis', sem serventia maior e quase que destinados à salinização, com o assoreamento das enchentes seguidas de longas estiagens."

A pesquisadora estadunidense Linda Lewin tem informações mais circunstanciadas da história do cangaço, em particular do período áureo de Antônio Silvino, o cangaceiro que o escritor José Lins do Rego conhecera na infância:

"Tendo se iniciado em 1897, a carreira do mais famoso cangaceiro da Paraíba, Antônio Silvino (Manuel Batista de Morais) coincidiu com a duração da oligarquia Machado-Leal. Seus roubos famosos e a continuada guerra que manteve com a Força Pública do Estado da Paraíba contribuíram acima de tudo para cristalizar a opinião pública a favor de uma posição mais dura do governo estadual contra o banditismo. As façanhas de Silvino deram-lhe, ademais, instantânea celebridade na poesia e no cancioneiro regionais. Os folhetos que por volta da virada do século começaram a ter uma grande circulação no Nordeste converteram-no num respeitável anti-herói. Na Paraíba, esses folhetos redefiniram o banditismo como uma questão política.

Para tornar as coisas piores para as oligarquias no poder, Silvino teve alguma participação na politização da questão do banditismo. A partir de 1904, aproximadamente, ele tornou públicos os seus ressentimentos pessoais com relação à administração do monsenhor Valfredo Leal e seu chefe de polícia, Antônio Massa. Silvino acusou também a Great Western Railway Company, de propriedade britânica, de expropriar terras de sua propriedade em Campina Grande. Um consumado e extemporâneo poeta por si mesmo, Silvino enviou versos politicamente derrisórios e ameaçadores a Valfredo e Massa, numa 'guerra de telegramas' que os poetas populares reservaram para o seu público em um número crescente de folhetins. Silvino revelou o que nenhum chefe local jamais fora capaz de demonstrar: que a autoridade pública do governo do estado acabava nos limites da capital. Para o deleite desses poetas populares, a alcunha de 'Governador do Sertão' – freqüentemente aposta a seus telegramas ameaçadores – espelhava a sua mobilidade territorial no interior de quatro estados. Ocasionalmente, Silvino até fez discursos em época de eleição para apoiar candidatos a cargos políticos. Suas escolhas recaíam sempre sobre os indivíduos com quem tinha um relacionamento de proteção, para os quais, assim fazendo, prestava um 'serviço.'"     

Chama a atenção no movimento do cangaço do realce dado à personagem feminina que despertava a curiosidade e a imaginação do cancioneiro popular. Como, por exemplo, na quadra popular: "– Acorda, Maria Bonita/Levanta, vem fazer o café/Que o dia já vem raiando/E a polícia já está de pé".

O assunto também chamou a atenção do folclorista potiguar Câmara Cascudo. A antologia Flor de romances trágicos (1966) reúne histórias de bandidos e bandoleiros. Como José Lins do Rego, Câmara Cascudo menciona a presença de Jesuíno Brilhante (1844-1879) na fazenda de seu avô, no interior do Rio Grande do Norte.

O sertanejo foi assim um dos tipos humanos mais sujeito a representações ao longo da história literária brasileira. De José de Alencar com O sertanejo (1875), e Euclides da Cunha, com Os sertões (1903), passando pelo próprio José Lins do Rego, com as obras Pedra Bonita (1938) e Cangaceiros (1953), até Guimarães Rosa, com Grande sertão: veredas (1956) e Ariano Suassuna, com A pedra do reino (1970).

A favor e contra eles se voltaram os coronéis. Vale citar o exemplo do comerciante, fazendeiro e usineiro Othon, codinome de Delmiro Gouveia, que se tornaria proprietário de uma poderosa cadeia de hotéis com seu nome. A impressionante história de ascensão do coronel Delmiro Gouveia chegou a ameaçar um vice-presidente da República, Rosa e Silva. Conta-se que os dois se atracaram pessoalmente no Rio de Janeiro, em 1900. Tal incidente não impediu que, em 1912, com o crescimento de seus negócios, o coronel Gouveia inaugurasse a Companhia Agro Fabril Mercantil e construísse a Vila Operária da Pedra. Seu poder voltou a incomodar outros coronéis do estado e acabou assassinado em 1917.

Nesse sentido, nas brevíssimas linhas deste texto, pode-se concluir dizendo que o coronel e o cangaceiro são duas faces de uma mesma moeda. Isto é, são dois protótipos de um mesmo Nordeste, marcado por conflitos pessoais, por vinganças e por faccionalismos de famílias em busca de hegemonia no poder local.

Edição      Enrique Shiguematu

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Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.