Blog GV Cult

Literatura em movimento: a ferrovia no romance Pureza, de José Lins do Rego

GVcult

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Maria Fumaça em Tiradentes. Fonte: Acervo Particular em http://www.joaobarcelos.com.br/12_03.htm

“E apitava de longe um trem, de muito longe

que o apito chegava a ele como um toque de flauta”.

Durante a segunda século XIX, e até a primeira metade do século XX, trabalhadores do campo e da cidade acostumaram-se ao trem como um de seus principais meios de transporte. Nas artes, as locomotivas inspiraram o maestro Heitor Villa-Lobos (1887-1959) a compor O trenzinho do caipira, parte da peça Bachianas Brasileiras n. 2. Na melodia, em tom nostálgico, o movimento da máquina mimetiza os instrumentos da orquestra. A composição recebeu, anos depois, a letra do poeta Ferreira Gullar (1930-2016):

“Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade noite a girar
Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra, vai pela serra, vai pelo mar
Cantando pela serra do luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar, no ar,no ar…”

Historicamente, as ferrovias já haviam produzido transformações em boa parte da Europa, no período que se seguiu à Revolução Industrial. No Brasil, este meio de locomoção de pessoas e de produtos se impregnou à sua paisagem na virada do século XIX para o XX.  Ainda no período do Império, o Brasil assistiu ao advento das estradas de ferro como uma grande novidade técnica, dinamizadora da vida local e integradora do território. Ainda que de maneira paulatina, o desenvolvimento dos meios de transporte e dos meios de comunicação – a exemplo do telégrafo, do telefone, do automóvel e do navio a vapor – impulsionava a interligação do país, sinalizando para a tendência a trocas de mercadorias e de informações.

As ferrovias substituíram os transportes em cavalos e lombos de burro, que abriam picadas em caminhos ínvios, de difícil acesso, pelo sertão. O aparecimento dos trens data de 1852, com a ação pioneira do empresário Barão de Mauá, responsável pela primeira ligação férrea entre o Rio de Janeiro e Petrópolis, esta última uma cidade serrana, com temperatura mais amena, escolhida como local propício para veraneio da família real brasileira.

O geógrafo francês Pierre Denis visitou o Brasil em princípios do século XX e assim descreveu o papel das ferrovias no desenvolvimento do país:

“A via férrea é como uma artéria vivificante. Os novos caminhos traçados na colônia terminam nela; as terras que lhe são vizinhas aumentaram de valor. Perto da estação formou-se um pequeno centro, hoteleiro, carpinteiro, ferrador e várias lojas pelas quais passa toda a importação e toda a exportação. Os produtos da terra, o milho, os feijões, adquiriram ali um valor mercantil. A existência dos colonos torna-se mais variada e mais inteligente. Germes da divisão do trabalho aparecem; alguns colonos fazem-se artistas”.

Para outros autores, menos otimistas, as vias ferroviárias cumpriam apenas interesses de ordem econômica. Isto porque os comboios da Great Western, por exemplo, levavam a Maceió, a João Pessoa e a Natal, cidades-capitais do Nordeste com maior expressão. A bitola de seus trilhos, no entanto, não penetrava o Oeste nem as brenhas dos sertões nordestinos. Esta era a crítica apontada pelo escritor nacionalista Alberto Torres (1865-1917):

“As estradas de ferro não entrelaçam as populações do interior, umas com as outras; não formam rede de relações recíprocas, movimentando a circulação interna: são vias de drenagem e de atração de povos e de riqueza, para as praças comerciais, para as capitais, para os portos, para os centros de negócio e de luxo”.

*

A ficção Pureza é constituída por personagens habituais dos romances de José Lins, como um cego – Ladislau – e uma negra velha – a criada Felismina. A novidade romanesca diz respeito ao cenário: o lugarejo é composto basicamente pela casa da estação de trem, cujo chefe é Antônio Cavalcanti, gordo e de olhos azuis, pai de uma família de posses, antigo senhor de terras em Palmares, pertencente ao nobre tronco dos Hollanda Cavalcanti, que se degradara com o passar dos séculos. Além da casa, há o chalé, construído por ingleses, banhado por um rio e envolto de eucaliptos, por onde cigarras e pássaros passam cantando.

“Fazia um mês que estava em Pureza. Era um recanto retirado, onde só existia mesmo, além da casa do chefe da estação, o chalé onde eu morava. Fora uma casa que o superintendente da estrada construíra para passar o verão. O lugar é uma delícia, um retiro que só mesmo o gosto de um inglês poderia ter descoberto”.

O enredo, de fundo psicológico, conta a história de Lourenço de Mello, conhecido por Lola, jovem que sofre de complexo de inferioridade. O complexo deriva do medo da tuberculose, doença que acometera e matara a mãe e a irmã. A sensibilidade mórbida faz de Lourenço um personagem tímido e soma-se à primeira experiência sexual, que fracassara. O trauma da morte e o amor fracassado levam o jovem enfermo a acorrer para a estação ferroviária de Pureza, lugar tranquilo, em busca da reabilitação física e psíquica.

O rapaz doente, no entanto, envolve-se em caso de amor com duas irmãs, Margarida e Maria Paula, filhas do chefe da estação, casado com D. Francisquinha: “Sempre que eu ia assistir à passagem dos trens, via na janela da estação as duas filhas do chefe. Cumprimentava-as e elas duas sorriam para mim. Reparando bem, eram duas moças bonitas. E disto elas tinham consciência, pois se enfeitavam para os horários.”.

O contato físico e a redescoberta do amor com Margarida revigoram Lourenço, que se recupera de seu mal de família em meio ao sossego, ao ar puro e à vida pacata da estação. Depois da fuga de Margarida, Lourenço inicia relação com Maria Paula, que tinha como pretendente o agulheiro da estação, Chico Bembem. O provável conflito com este faz Lourenço partir em retirada de Pureza, finalizando a história com um motivo recorrente na obra de José Lins, a fuga, valendo-se para tanto do uso da ferrovia.  

Edição      Enrique Shiguematu

Bernardo-Buarque-de-Hollanda-1024x213