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José Lins do Rego e a língua musical brasileira

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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Serra, serra, serrador,

serra a madeira de Nosso Senhor

Fogo morto

O xaxado esquentou na gafieira
Sebastiana não deu mais fracasso

E gritava: a, e, i, o, u, ipsilone
Luiz Gonzaga.

 

José Lins do Rego foi um escritor que soube tratar das influências da oralidade e da sonoridade na literatura brasileira. A sinergia que proporcionou entre a escrita e a fala típica da região nordestina fez o crítico Bernardo Gersen evocar o cantador Dioclécio, personagem do romance Cangaceiros: “… até que ponto ele é de autoria do nosso romancista e onde começa precisamente a colaboração coletiva, pelo menos através dessa língua gostosamente oral e de suas virtualidades estéticas?”

A música, cadente e melódica, comparece em outro romance, Fogo morto. Este traz vários trechos de cantigas coletivas, de autoria desconhecida, sob a forma de estribilhos de cocos ou de versos populares cantados pelo personagem José Passarinho:

 

“O caixeiro bebe na venda/

O patrão no Varadô/

Eu estava em Itabaiana/

Quando a boiada passou/

Ô lê lê vira a moenda/

Ô lê lê moenda virou.”

“Engenho Novo,

Engenho Novo,

Engenho Novo,

Bota a roda pra rodar”.

“Me diga, minha menina/

Minha menina real/

Se não tem outros amores/

Que Dom Carro de Monteval?”

 

Os traços estilísticos de José Lins, com seu tom de linguagem despachada e de conversação corrente, fizeram o crítico baiano Eugênio Gomes observar:

“… o escritor trabalha uma língua que é, de si mesma, uma afirmação vital: a língua brasileira, com as nuanças do saboroso dialeto nordestino, malbaratado até o ridículo pelo regionalismo de convenção.

Quando se sabe que esse escritor é também um dos críticos mais lúcidos do Brasil, a trivialidade da sua prosa toca as raias do prodigioso. Porque não há por onde surpreender nele o trivialismo estudado. Pelo contrário, a sua sintaxe providencialmente insubmissa conserva uma unidade interna que não pode deixar de ser a resultante de uma assimilação normal”.

 

Em tom de elogio, outro comentador, Peregrino Júnior, alinhava:

 

“Criou José Lins do Rego estilo que era só dele: sintaxe pessoal, períodos curtos, ordem direta, adjetivação enxuta e essencial, modismos, arcaísmos e idiotismos, substância medular da fala do povo. A sua prosa é uma das prosas mais autênticas, mais ricas de seiva da nossa língua – capitosa, corrente e natural. A sua melodia interior, soube-a traduzir na língua incomparável pela comunicabilidade psicológica e formal – língua ágil, colorida e pitoresca –, que foi aquela que sua infância se acostumou a ouvir falar na bagaceira do engenho familiar”.  

Sobre as características da “língua brasileira”, Gilberto Freyre observa:

“Algumas palavras, ainda hoje duras ou acres quando pronunciadas pelos portugueses, se amaciaram no Brasil por influência da boca africana. Da boca africana aliada ao clima – outro corruptor das línguas europeias, da fervura por que passaram na América tropical e subtropical.

O processo de reduplicação da sílaba tônica, tão das línguas selvagens e da linguagem das crianças, atuou sobre várias palavras dando ao nosso vocabulário infantil um especial encanto. O ‘dói’ dos grandes tornou-se ‘dodói’ dos meninos. Palavra muito mais dengosa.

A ama negra fez muitas vezes com as palavras o mesmo que com a comida: machucou-as, tirou-lhes as espinhas, os ossos, as durezas, só deixando para a boca do menino as sílabas moles. Daí esse português de menino que no norte do Brasil, principalmente, é uma das falas mais doces deste mundo. Sem rr nem ss; as sílabas finais moles; palavras que só faltam desmanchar-se na boca da gente”.

Tal linguagem, típica da formação da criança sob a égide patriarcal, não se confinou a essa faixa etária e disseminou-se, segundo Freyre, para toda a sociedade da época. Arremata o autor em observação sobre a cultura oral e auditiva no Brasil colonial: “E não só a língua infantil se abrandou desse jeito, mas a linguagem em geral, a fala séria, solene, da gente grande, toda ela sofreu no Brasil, ao contato do senhor com o escravo, um amolecimento de resultados às vezes deliciosos para o ouvido.”

Em José Lins, o “campo de experiências” linguísticas, para glosar a expressão de um conceituado historiador alemão, está todo ele alojado na sua região natal e no interior nordestino. Com uma liberdade de narração e com uma linguagem não convencional, sua literatura, desenvolvida entre as décadas de 1930 e 1950, reconstitui o mundo decadente e agônico do Brasil rural, do qual o engenho será a sua unidade principal.

Edição      Enrique Shiguematu

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