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José Lins do Rego e o rito de passagem da Academia Brasileira de Letras

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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Os pares e a fortuna crítica de José Lins do Rego gostam de relembrar a cerimônia que laureou o escritor de Fogo morto na ABL, na noite de 15 de dezembro 1956. Se a fala de posse chocou a muitos, também houve aqueles que se divertiram com sua ousadia e reverência.

Lembra o pesquisador Nestor Pinto Figueiredo que o amigo Cícero Dias escreveu em carta para José Lins:

 

“Recebi o seu discurso sobre o Ataulfo. Já o mostrei a Geanini, que adorou. Você fez do Ataulfo uma figura de romance carioca com hábitos franceses, o que era comum aos frequentadores da Lallé Cave ou o Alvear, muitos Ataulfos passaram por lá. Grande discurso o seu na Academia. Despido de coisas comuns, tão bom e melhor do que o de Couteau na Academia em Paris.”

 

Ao fazer uso da palavra, Zé Lins assestou baterias contra seu antecessor, frequentador da high society e assíduo dos serões aristocráticos em casa de Laurinda Santos Lobo (1878-1946), situada no bairro de Santa Teresa. Observava com ironia José Lins: “A sua vida foi um fiveo’clock em casa de Dona Laurinda.” Embora tenha efetivamente constituído uma quebra de protocolo, ao criticar a pobreza literária do patrono da cadeira para a qual fora eleito – o advogado e magistrado Ataulfo de Paiva (1867-1955) –, não se deve considerar aquele discurso o primeiro e único incidente na história da Academia Brasileira de Letras.

É necessário lembrar que a ABL, fundada em 1897 por Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Arthur Azevedo e José do Patrocínio, assistiu a outros casos parecidos, alguns deles ainda mais graves que o de José Lins/Ataulfo de Paiva, envolvendo outros de seus literatos. Basta recordar que em 1914 o poeta paranaense Emílio de Menezes (1866-1918) foi eleito para a Academia, mas seu discurso de posse ofendeu igualmente “imortais” como Afrânio Peixoto e Oliveira Lima. Diante do escândalo, as portas se fecharam para o boêmio irreverente.  

Para que se entendam as palavras duras de José Lins à Academia e ao patrono que sucedia deve-se levar em consideração que Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e outros nomes da geração dos fundadores da ABL já estavam mortos na década de 1910, à exceção de Olavo Bilac e Coelho Neto. Uma vez passada a primeira geração, a ABL transformava-se progressivamente em abrigo de conservadores, com o culto à forma pura e ao estilo rebuscado nas letras nacionais. O escritor-modelo era o dândi das elites, praticantes de uma literatura palaciana, à moda francesa.

A visão de José Lins do Rego acerca da Academia Brasileira de Letras derivava de sua concepção e de seus princípios sobre literatura. Para tanto, era contrário a tudo que lhe parecia artificial e deixou explícito várias vezes sua oposição à ideia de se candidatar a uma vaga na ABL.

Afeto à vida, não aos salões palacianos, no final dos anos 1940, pouco depois de receber o Prêmio Fábio Prado, pela publicação de Eurídice, fez um autorretrato na imprensa:

 

“Tenho quarenta e seis anos, moreno, cabelos pretos, com uma dúzia de fios brancos, um metro e 74 centímetros, casado, com três filhos e um genro, 86 quilos bem pesados, muita saúde e muito medo de morrer. Não gosto de trabalhar, não fumo, não durmo com muitos sonos, e já escrevi 11 romances. Se chove, tenho saudades do sol, se faz calor, tenho saudades da chuva. Sou homem de paixões violentas. Temo os poderes de Deus, e já fui devoto de Nossa Senhora da Conceição. Enfim, literato da cabeça aos pés, amigos de meus amigos e capaz de tudo se me pisarem nos calos. Perco então a cabeça e fico ridículo. Não sou mau pagador. Se tenho, pago, mas se não tenho, não pago, e não perco o sono por isso. Afinal de contas, sou um homem como os outros. E Deus queira que assim continue.”

 

Em verdade, para defender o seu postulado da fala espontânea e da escrita despojada, contra o caráter ornamental dos beletristas, José Lins podia recuar ainda mais no tempo: “A literatura inglesa ajudou Nabuco a fixar a sua posição de artista. Enquanto o seu colega Rui Barbosa compunha uma eloquência de titã da língua, Nabuco atingia a sua realidade de escritor sem riqueza vocabular. Como Montaigne, exprimia-se como falava.”

Foi criticado mais de uma vez, inclusive pelos amigos, em razão da falta de rigor erudito ou, para usar um eufemismo, em razão da postura heterodoxa no trato de convenções e de regras da norma culta. Diante das críticas, respondia, como na crônica Prefiro Montaigne: “Reflito sobre os conselhos, faço o meu exame de consciência, e prefiro continuar como seu, incorreto, mas claro, sem a riqueza vocabular dos estilistas, mas fácil, e capaz de chegar ao entendimento de todos.”

Zé Lins identificava-se ainda com o autor de Triste fim de Policarpo Quaresma: “… mulato que quase realizou milagrosamente uma grande obra por intuição? Lima Barreto foi a maior vocação do nosso romance.”

Segundo informa a enciclopédia Nosso Século, a ABL começa naquele segundo decênio do século XX a aceitar figurões políticos como o general Dantas Barreto (eleito em 1910), que seria ministro da Guerra de Hermes da Fonseca, e mais tarde também governador de Pernambuco. Mimetizando as suspeitas quanto à lisura das eleições na Primeira República, a ABL é acusada também de eleições fraudulentas. A eleição, por exemplo, do médico Afrânio Peixoto foi tida por um escândalo. Segundo Wilson Martins, autor de A esfinge (1911) nada fizera para justificar sua escolha à ABL.

Se José Lins criticava Ataulfo de Paiva por não gostar de poesia, sublinhe-se que fato mais grave acontecera em 1912, quando, pela primeira vez, surge um candidato à Academia que não tinha escrito um único livro. Tratava-se de Lauro Müller (1863-1926), político e diplomata. Para que pudesse ser eleito, usou o estratagema de publicar em Paris um volume com seus discursos. Valeu-se de papel grosso, letra em fonte grande e, mesmo assim, o resultado foi apenas um opúsculo.

Entretanto, com o apoio de um setor da velha guarda, Lauro Müller entrou no rol da ansiada imortalidade. Revoltado, o crítico paraense José Veríssimo, autor de História da literatura brasileira (1916), renunciou ao cargo de secretário geral da Academia e definiu seu rompimento com os acadêmicos numa frase lapidar: “Deixemos que a Academia se faça à imagem da sociedade a que pertence”.

Assim, entre os membros da ABL na década de 1920, era possível encontrar, ao lado de Ataulfo de Paiva: Filinto de Almeida, Augusto de Leme, Pedro Lessa, Rodrigo Otávio Filho, Luís Guimarães Filho, Osório Duque Estrada, Carlos de Laet, Coelho Neto, Goulart de Andrade, Aloísio de Castro, Domício Gama, Conde Afonso Celso, Antônio Austregésilo.

Por fim, diga-se que notas tristes e violentas com o envolvimento de acadêmicos também macularam a imagem da ABL. Além do assassinato passional que levou à morte de Euclides da Cunha no subúrbio do Rio, Gilberto Amado, deputado e escritor sergipano, assassinou o poeta Aníbal Teófilo, após um desentendimento entre os dois conferencistas em 1915, no prédio do Jornal do Comércio.

Edição      Enrique Shiguematu

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