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Os anos de formação de José Lins do Rego (II)

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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

A capital pernambucana, em que José Lins viverá como estudante universitário, era então a cidade mais cosmopolita das regiões Norte e Nordeste do Brasil.

Na última década do século XIX, o Nordeste foi palco de movimentos místico-populares, que pregavam mensagens difusas e que reclamavam, dentre outras, uma volta à Monarquia. Isto ocorreu, de maneira mais dramática e contundente, no arraial de Canudos (1896-1897), interior da Bahia, conforme relatou em obra semidocumental e semificcional o escritor Euclides da Cunha, no clássico Os sertões (1903). A epopeia mostra como um humilde beato foi capaz de arregimentar milhares de sertanejos e fazer pregações milenaristas contra a “República da desgraça”, mobilizando afinal quase todo o Exército nacional, que dizimaria o valente povoado.

Quando José Lins do Rego nasceu, em princípios da década de 1910, o governo republicano continuava a se deparar com manifestações messiânicas e contestatórias desse tipo. Durante quatro anos, entre 1912 e 1916, a região Sul do país foi palco de uma longa e sangrenta guerra, na divisa oeste entre Santa Catarina e Paraná, na área chamada Contestado. Deflagrada a partir de conflitos de terras entre camponeses e uma indústria madeireira, ela seria liderada por outros pregadores milagrosos, com os “monges” João e José Maria. O combate levou à mobilização de numerosas tropas do regime, sob o comando do marechal-presidente Hermes da Fonseca (1855-1923).

Se no interior do país ocorriam revoltas dessa natureza, nas cidades os primeiros movimentos de massa eram organizados por operários brasileiros, gerados logo após uma incipiente onda de urbanização e industrialização do país. Enquanto o Rio de Janeiro conhece a rebelião dos marinheiros durante a Revolta da Armada, em 1910, São Paulo assiste a uma impressionante Greve Geral em 1917, no mesmo ano em que, na Rússia, estoura a Revolução de Outubro.

Os trabalhadores de Recife não ficariam atrás e, em 1919, ocasião em que Zé Lins contava com seus 18 anos de idade, também organizam uma grandiosa paralisação, sob a presença de um líder operário personificado em Joaquim Pimenta, também conhecido como ensaísta e fundador do jornal Diário do Povo. Figura romântica, a quem faltavam os “predicados para uma liderança ordenada, tranquila e eficaz”, Pimenta protagonizará episódios que serão mais tarde retratados ficcionalmente por José Lins, no seu romance urbano O moleque Ricardo (1935).

A capital pernambucana, em que José Lins viverá como estudante universitário, era então a cidade mais cosmopolita das regiões Norte e Nordeste do Brasil. Em 1920, era a quarta capital mais populosa do Brasil, com 240 mil habitantes, sendo destes 15 mil operários. O grupo industrial mais poderoso da capital abriu as Casas Pernambucanas naquele período.

Nem sempre tinha sido assim. Ainda em princípios do novo século, Recife tentava superar as marcas coloniais que se estenderam durante todo o século XIX, com ruas acanhadas, imundas e desagradáveis, sendo uma cidade considerada até então velha, bolorenta e em decomposição.

Deve-se atentar ainda para o fato de que Recife, ameaçada pela presença holandesa no século XVII, somente começa a ganhar importância no cenário político-econômico nacional a partir do século XVIII, com o advento do algodão, época em que se torna o segundo porto de exportação do país, depois de São Luís do Maranhão.

É neste cenário de uma cidade que se torna importante com a passagem do tempo que José Lins do Rego passará boa parte de sua mocidade. O crítico Álvaro Lins não tem dúvidas da importância da formação de José Lins na capital pernambucana:

“Embora nascido no interior da Paraíba, o sr. José Lins do Rego pode ser considerado um escritor do Recife, onde se formou em todos os sentidos, não só na Faculdade de Direito, mas sobretudo literariamente, na companhia dos srs. Gilberto Freyre e Olívio Montenegro, com os quais se iniciou na leitura de romancistas franceses e ingleses. E como se sabe, o que caracteriza a vida cultural do Recife é o seu espírito crítico. A crítica do Brasil nasceu no Recife, e o Recife permanece fiel a essa tradição. Este fato explica, talvez, que até os trinta anos o sr. José Lins do Rego não houvesse dado nenhum sinal de romancista, enquanto ia fazendo sucesso com seus ensaios de crítica. Era talvez o espírito crítico do Recife que retardava a eclosão da sua verdadeira personalidade: a do romancista.”

Tal formação se deve em particular a escolha da residência na cidade pela existência de uma tradicional e prestigiosa Faculdade de Direito. É possível compreender a importância histórica da Faculdade de Direito, isto é, a centralidade desse estabelecimento de ensino superior, no período com base nas palavras de um importante autor norte-americano, o brasilianista Robert Levine:

“A instituição que tinha enorme importância, que, na verdade, ocupava o centro do universo cultural do Nordeste inteiro, era a Escola de Direito do Recife, uma das duas únicas escolas de Direito do país até 1881. A maior parte dos chefes políticos de Pernambuco estudou na Faculdade, que tinha, para o norte do Brasil, a mesma importância da École normale supérieure, para a França, ou da Universidade Nacional, para o México. Os bacharéis preencheram o vazio entre o Império, quando a elite rural dominara o Estado, e os anos depois de 1930, quando os tecnocratas fizeram sua aparição, compondo com eles, daí por diante, a panóplia político-administrativa. Percorrendo uma lista impressionante de bacharéis, ativos na vida pública do século XIX, Gilberto Freyre sugere que o grau em Direito correspondia, virtualmente, a um ‘título de nobreza’. Ou, mais exatamente, o título de bacharel era o selo de legitimação que a sociedade conferia, com o sinal da sua maior estima, aos produtos de um sistema de educação superior ritualista, que tinha na Faculdade o seu pináculo.”

No livro Estilo tropical, o pesquisador Roberto Ventura apontou a Escola de Recife como uma das expressões mais bem-acabadas da cultura literária, jurídica e retórica do bacharel e do letrado brasileiro na segunda metade do século XIX. Surgiu em princípio como um movimento filosófico no interior da Faculdade de Direito. Inspirado no idealismo alemão, a instituição produziu também os primeiros germes de consciência científica nacional, sendo encabeçada por dois sergipanos: Tobias Barreto (1839-1889) e Sílvio Romero (1851-1914).

Seus líderes rejeitavam parte do positivismo francês, opunham-se ao direito natural e defendiam um ‘modernismo evolucionista’, que se revelava eclético, aberto e tipificado num profundo interesse pela filosofia germânica. A atenção recaía em particular na obra de Ernest Haeckel, autor que se tornaria um dos mais famosos cientistas da época, com os livros Os enigmas do universo e As maravilhas da vida.

O período que antecedeu a abolição da escravatura e a proclamação da República assistiu à profusão de uma imensa variedade de correntes políticas e intelectuais, taisc omo o republicanismo, o abolicionismo, o neokantismo e o positivismo. Seus protagonistas eram estudantes, de origem patrícia ou oriundos de setores da classe média, liberal e radical, muito embora Tobias Barreto, mulato do interior de Sergipe, exímio orador, vivesse em um dos bairros pobres do Recife, sob condições próximas de miséria, mantendo-se com seu magro salário de professor.

Ainda no final do século XIX, a chamada geração de 1870 vai romper com o protótipo do bacharel que, segundo Vamireh Chacon, até então se caracterizava por ser “pedantemente erudito, agressivo, provinciano e alienado dos problemas concretos de natureza social”. Em seu lugar, ela propunha um tipo de letrado engajado, que postulasse uma nova sociedade e um novo estilo de vida, como o farão, na Primeira República, os escritores Euclides da Cunha e Lima Barreto.

Em virtude disso, os estudantes como José Lins do Rego buscavam ultrapassar os atributos cavalheirescos e lançavam-se às orgias, ao humor, à audácia e ao romantismo. No afã de se diferenciar do bacharelismo da geração precedente, alguns de seus alunos radicalizavam contra a própria instituição:

“Alguns homens importantes renegaram a pretensão de supremacia intelectual da Escola de Direito. O diplomata e historiador pernambucano Oliveira Lima, por exemplo, recusou um cargo de professor do Ginásio e, por julgar curta de vistas a comunidade acadêmica do Estado, doou sua biblioteca particular à Universidade Católica de Washington D. C. em vez de deixá-la para a Faculdade de Direito do Recife, ou para qualquer outra instituição brasileira.”

É ainda o estudioso Souza Barros, autor de A década de 1920 em Pernambuco quem explica:

“Pessoa de Morais, lúcido sociólogo, considera a Faculdade de Direito do Recife, nos seus áureos tempos, uma complementação do fausto da casa-grande, uma projeção dessa força rural. O bacharel e o grande senhor rural estavam ligados por laços muito próximos de parentesco e de interesses de ordem econômica.”

Assim, junto à formação na faculdade, cedo José Lins iniciar-se-á no ambiente do jornalismo recifense. Sua estreia ocorre na imprensa local, através de um artigo no jornal Diário do Estado, dedicado ao jurista liberal e ex-ministro das finanças, Rui Barbosa (1849-1923):

“Eu, porém, não desistia de ser orador. Na Paraíba fiz um discurso contra Epitácio, defendendo a candidatura de Rui Barbosa à presidência da República. José Américo de Almeida e Olívio Montenegro me ouviram falar. Olívio, de fraque e anel de advogado, todo chique, não gostou do meu discurso. No dia seguinte, o Diário do Estado publicava um artigo meu com este título, ‘Ave, Rui’”.

No artigo, revela a sua admiração pelo mestre da oratória, justamente quando o político baiano declinava da chefia da delegação brasileira na Conferência da Paz, em Paris, sendo substituído por Epitácio Pessoa. Graças à projeção nacional e internacional, o Águia de Haia, formado na tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, se candidatava à sucessão de Venceslau Brás na presidência da República. Rui Barbosa receberia o apoio de José Lins, que se opunha à candidatura de seu conterrâneo, Epitácio, à época interventor do estado. O candidato liberal seria, no entanto, derrotado por este último.

O jornalismo político-literário, dessa forma, levava José Lins a fazer comentário sobre a vida regional, o que por sua vez acaba por conduzi-lo à oratória. O engajamento nas lutas de poder local mostra uma de suas características que se acentuariam com o tempo: o gosto pela polêmica e pelas tomadas de posição em debates públicos.

Conforme o próprio rememora de sua vivência pernambucana: “Saí pelo interior do Estado com o senador Manuel Borba, na campanha de sucessão do governo José Bezerra, contra a intervenção de Epitácio Pessoa. Foi durante essa viagem política que fiquei amigo de um repórter do Jornal Pequeno, chamado Osório Borba.”

Edição      Enrique Shiguematu

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