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Uma historiografia do Iluminismo (II)

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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Este assim se encontra apesar de toda a modernização produzida pelos déspotas esclarecidos…''

Para além dos homens e das sociedades ideais projetadas pelos grandes pensadores iluministas, o que dizer da realidade dos grupos e da massa anônima que vivia à época do Iluminismo? É esta a questão de fundo que perpassa a obra coletiva organizada por Michel Vovelle (1996), na qual o historiador francês periodiza o Iluminismo como o momento que se interpõe entre a ruptura do Barroco na era pós-tridentina e os efeitos paroxísticos produzidos pela Revolução francesa, com sua “pá de cal” no que se passa a denominar de estrutura política do Antigo Regime.

Apesar dessa periodização preliminar e desse vínculo social, a obra coordenada por Vovelle não se constitui à maneira, dir-se-ia um tanto apelativa, de uma “história vista de baixo”, oferecendo um perfil de personagens em sua maioria pertencentes à elite, em lista que inclui o nobre, o guerreiro, o homem de negócios, o homem de letras, o homem de ciência, o artista, o explorador, o funcionário, o padre e a mulher.

Junto ao quadro humano e social, seria o caso também de se colocar a polêmica questão proposta por Roland Mousnier na década de 1950, acerca da natureza da sociedade setecentista. Afinal, pergunta o historiador francês, num diálogo com teorias marxistas e weberianas, trata-se de uma organização social baseada ainda em estamentos/ordens ou já estruturada em classes?

Não se trata, portanto, em nenhum dos dois autores, de interrogar o homem das Luzes em sua formulação ideal. Mais do que o homem abstrato e geral definido e fixado pelo Iluminismo na Enciclopédia, mais do que prescrever valores e virtudes, do que postular a liberdade do direito natural, busca-se o homem concreto e particular de uma Europa dividida entre campo e cidade, entre letrados e analfabetos, entre hierarquias de nobreza e desejos de ascensão social, entre sistemas políticos monárquicos e aspirações republicanas, entre defensores da fisiocracia e da economia política, entre guerras e epidemias.

Para compreender a realidade e a nova configuração da ordem social, é preciso fornecer um quadro demográfico da Europa do Setecentos, o que é possível aferir graças aos estudos quantitativos de um Labrousse, de um Mandrou (1988), de um Mousnier (1980). O crescimento demográfico, sobretudo na segunda metade do século XVIII, conforme sintetiza com clareza Hobsbawm em sua era revolucionária (2006), se mostra sensível na Inglaterra e na França, que passa de 20 para 28 milhões de habitantes, e alcança a Europa central e oriental – a Hungria, por exemplo, assiste a uma explosão populacional. As causas deste crescimento, segundo Vovelle, se encontram menos no controle das doenças e no avanço da medicina e das vacinas, e mais no recuo das epidemias, com a superação das taxas de natalidade sobre a mortalidade, o que vem a relativizar a ideia de uma consequência direta da política voluntarista dos agentes das Luzes.

Nas regiões urbanas consideradas mais evoluídas e prósperas da Europa, as atitudes coletivas face ao nascimento, à vida, à sexualidade e à morte começam a mudar. Para além da história quantitativa, é Phillipe Ariès (1975) quem estuda a figura da criança no seio da família burguesa e sua mudança de papel, adquirindo cada vez mais importância como uma idade especial e autônoma frente à vida adulta. A estrutura familiar se transforma pouco a pouco nessas regiões centrais, onde práticas como a contracepção são adotadas, notadamente a partir da década de 1770.

Contudo, deve-se assinalar que, por ocasião da Revolução Francesa, cerca de 85% da população se encontra concentrada ainda no campo. Embora já seja objeto de idealização por autores como Jules Michelet e Restif de la Bretonne, o que se pode constatar de maneira concreta é o crescimento da população e a ampliação de áreas cultiváveis. Em determinados lugares da Europa, chega a se falar em Revolução Agrícola: da Inglaterra aos Flandres, de certas áreas da França até o Rio Pó. Na Europa oriental, o cultivo de cereais também alcança vastos domínios.

A condição camponesa não acompanha no mesmo ritmo as conquistas técnicas agrícolas do mundo rural. Na França da segunda metade do século XVIII, o salário encontra-se estagnado. Os quadros senhoriais tradicionais permanecem inalterados. A Inglaterra, contudo, é quem começa a sinalizar para um sistema feudal em desagregação e já moribundo. Enquanto isto, o leste europeu conhece a época de sua “segunda servidão”, com o reforço dos laços de servidão.

Assim, a Revolução Industrial já está em curso nas ilhas britânicas, com formas de protoindustrialização sendo introduzidas na Europa ocidental. As inovações são mais notáveis no campo do que na cidade. Esta assiste a novos processos de dependência, com a decomposição de antigas solidariedades corporativas, cada vez mais influenciadas pelo progresso comercial e fabril. Por outro lado, para Pierre Chaunu, nem o campo nem a cidade conhecem ainda uma verdadeira revolução. Fazendo eco a este historiador, Labrousse considera que, apesar da entrada da máquina no mundo industrial do têxtil e da metalurgia, o século das Luzes é ainda movido pelo sistema de produção antigo. É certo, de todo modo, que a nova era já apresenta seus sinais no mundo urbano de Londres ou Paris, nas grandes cidades portuárias, bem como no comércio transoceânico.

A imagem da cidade entre os contemporâneos é ambígua. Ela é vista como lugar de perdição, da mesma maneira que espetáculo de luxo e miséria, corrompida sob diversos aspectos, com seu vapor poluente. Lugar de residência da aristocracia e da burguesia, ela apenas pouco a pouco se afirma na Europa ocidental, com novos hábitos, novas maneiras de ser e aparecer, tal como estudadas por Daniel Roche e Arlette Farge. A despeito das estruturas que permanecem imutáveis, como as guildas e as corporações, a modernidade pavimenta seu caminho.

Em relação a um dos símbolos do século das Luzes, a difusão da cultura letrada, Michel Vovelle contrapõe um noroeste da Europa majoritariamente letrado, fronteira que se estende da França setentrional até Genebra, a uma Europa meridional e, progressivamente menos letrada, do oeste ao leste europeu. Este assim se encontra apesar de toda a modernização produzida pelos déspotas esclarecidos na Rússia (Catarina), na Prússia (Frederico II) e no Império Austro-Húngaro (José II).

A grande extensão territorial que resta à margem do movimento das Luzes não deixa de conhecer transformações, conforme sustenta Maurice Agulhon, com uma evolução interna no sentido da secularização, em áreas onde predominavam as penitências e as confrarias religiosas. O terreno religioso é, aliás, um dos principais campos de batalha dos iluministas e incide mais sobre homens do que sobre mulheres, mais nas cidades do que no campo.

Ainda de acordo com Vovelle, o contraste de realidades europeias permite afirmar que a estabilidade das estruturas religiosas profundas coexiste com um mundo mais povoado, mais movimentado, onde a modernidade abre seu caminho através de novas maneiras de produzir, de ser e de parecer, mobilidade refletida nas atitudes e nas representações coletivas. No domínio cultural, como na economia e na sociedade, os polos de difusão das novidades se esboçam, em meio a zonas de sombra. Assim, uma cidade nova a ser criada, unificada segundo normas inéditas, se oferece à iniciativa voluntarista dos novos atores da transformação social e intelectual.

Esses, os homens das Luzes, trazem à cena uma temática que se divide entre o antigo e o novo, a liberdade e a opressão, a natureza e a história, a razão e o despotismo, a virtude e a libertinagem, o mérito e o ócio.

Edição      Enrique Shiguematu

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