Blog GV Cult

Walter Benjamin e Paul Zumthor (II): o “romance” medieval

GVcult

''Paul Zumthor dedica-se ao estudo dessa fase…''

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

“Etimologicamente haurido de Roma, romance indica o percurso de uma língua,

a latina, em seu modo próprio de desdobrar-se, em seu destino”.

Márcia de Sá Cavalcanti

 

Em A letra e a voz (Companhia das Letras, 1993), Paul Zumthor examina uma das gêneses do romance. Seu surgimento pode ser situado na segunda metade do século XII, em um primeiro momento no território que hoje corresponde à França e, em um segundo momento, ao que na atualidade se chama de Alemanha. Tal gênero literário, ainda embrionário, vai-se desenvolver de maneira lenta até o século XV, imerso de uma cultura oral dispersa e multívoca, em que a voz ocupa um lugar de eminência sobre o conjunto de expressões artísticas, cênicas e corporais do período.

A narrativa escrita permanece híbrida, jungida à elocução verbal, transformando-se de forma paulatina até o advento da imprensa no século XVI, quando a relação entre o homem e a linguagem sofre uma alteração profunda.

Paul Zumthor dedica-se ao estudo dessa fase, em que germina a ideia preliminar de romance e procura captar as linhas de força do gênero, ainda difuso e desconfigurado, nos textos de então. A sociedade medieval é marcada pelo predomínio da voz sobre a escrita, encontrando-se subordinada aos recitais e à audição comunitária. O prestígio da voz sobressai em uma paisagem, em sua grande maioria, ágrafa.

A ascensão do romance no século XII ocorre em um contexto de divisão da sociedade, segundo dois universos linguísticos básicos: a língua latina e as línguas vulgares. O latim é praticado por uma parcela assaz reduzida da população, com destaque para o clero e com ênfase na escrita. Já a língua vulgar é utilizada pela maioria da população e exercida primordialmente através da fala. As manifestações da língua vulgar dão-se entre os contadores de história, os jograis, os cantadores de gesta, os trovadores e os menestréis. Em uma atmosférica poética abrangente, esses extratos da sociedade valem-se da voz viva para dar azo a toda sorte de improvisação e malabarismo verbal.

O romance coloca-se de forma antagônica ao conto, sendo este pertencente ao tronco folclórico anônimo, menosprezado como gênero menor. Fixado em língua vulgar, o texto romanesco apresenta uma composição voltada para a leitura em grupo, revelando o trânsito fluido entre a oralidade e a escritura nessa fase. Por um lado, ele é uma adaptação de uma obra latina antiga, como a Ars amandi, de Ovídio, com vistas à glosa e à transmissão de boca em boca. Por outro, ele é uma transposição escrita de uma história propalada oralmente.

Os romances desse período dividem-se também em prosa e verso. O primeiro destina-se ao público cavalheiresco e nobre, ao passo que o segundo dirige-se ao intérprete e ao seu desempenho teatral. Os temas do romance em prosa são com frequência tristes e trágicos, enquanto os romances escritos são alegres e frugais. O romance medieval nutre-se de narrativas históricas baseadas seja na fantasia, seja nas reminiscências do narrador.

A indeterminação romanesca pode ser ilustrada nessa passagem do livro:

 

“… romance mal alinhavado, desprovido de unidade, parasitado por digressões adventícias, mas de um ardor em que se fundem numa liga brilhante mil elementos heterogêneos; de um verdor alternadamente cáustico, galante, heroico, enternecido; em que o verbo tanto adere à nudez do vivido quanto tremula ao vento das palavras como uma bandeira: alegre, levando seu ritmo sem muito cuidado de horários…” (p. 273)

Se os elementos variados do romance despontaram nos séculos XII e XIII, nos séculos XIV e XV, assiste-se a algumas cristalizações do gênero, com base no avanço de uma certa consciência da linguagem ficcional e na progressiva laicização da sociedade. O romance começa a se interrogar sobre a origem das “coisas”, interessa-se pela verdade, argui pela justiça. A noção de sujeito e personalidade aflora também, mas em um ritmo espaçado, vagaroso. Já o conto e as encenações orientam-se tão-somente na busca da diversão e do prazer, no intuito de satisfazer o protagonista e de entreter o seu público. O que então se chama de romance procura construir um universo à mercê do ser humano, ao invés do conto, cujo propósito é a fruição do mundo.

As diferenças entre o contador de histórias e o romancista vão-se delineando até a emergência da imprensa, no século XVI, quando os intercâmbios entre a letra e a voz são comprometidos. Uma ordem social, econômica e cultural amaina os contatos livres entre a linguagem oral e a escrita.

A conclusão de Zumthor é o elo a remissão ao ensaio de Benjamin, a ser tratado na próxima quinzena: “A difusão da imprensa fez cair os últimos obstáculos à constituição do que se tornaria, depois da ‘Idade Média’, uma literatura. Por fim, ela viraria de ponta-cabeça as relações entre o autor e o seu texto, entre este e seu público” (p. 282).

Edição      Enrique Shiguematu

Bernardo-Buarque-de-Hollanda-1024x213