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Por entre azulejos: análise da obra Linda do Rosário, de Adriana Varejão

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André Akerman e Luís Fernando Godoy

Em meio ao misto jardim botânico e galerias de arte contemporânea, no maior centro de arte a céu aberto da América Latina, o Inhotim, está a galeria com a obra a ser aqui analisada. Entre árvores tropicais e subtropicais, um bloco de concreto que parece emergir e flutuar no ar aparece ao espectador. Na entrada para a Galeria Adriana Varejão, após atravessar a instalação Panacea phantastica, encontra-se o que parece ser, inicialmente, um muro de azulejos quebrado, entre o chão e paredes cinzentos, ao lado de uma pintura de óleo, O Colecionador, retratando uma sauna de forma e profundidade realistas. O nome da obra é indicado: Linda do Rosário.

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No que a perspectiva toma forma, e pode-se caminhar ao redor do pretenso muro, vê-se que há ali mais do que azulejos quebrados: óleo sobre alumínio e poliuretano (ainda que, num primeiro momento, pouco importe do que é feita), que, através da artista, simula vísceras e carne humana entre os azulejos brancos. A primeira impressão, antes de qualquer análise ou constatação, é estranhamento. O que de frente remete, pelo branco higiênico dos azulejos, um quê de sanitário, é transformado em quase uma máscara para o que realmente contém: carne, aparentando um corte recente e um aspecto próximo do humano. O contraste entre o humano e o artificial é visível: a carne não parece ultrapassar o seu espaço delimitado, o espaço entre as duas paredes. Além disso, apesar do brilho e da aparente consistência da pretensa carne induzirem à vontade de tocá-la, a ausência de um odor característico provoca ainda mais estranhamento diante da carne que não é carne, mas é.

Não é clara, porém, a divisão entre as três obras citadas: por uma parede vidro, de dentro da galeria, vê-se a piscina quadrada e os azulejos com plantas e fungos alucinógenos pintados por Varejão formando um banco no centro dessa. A pintura da sauna parece aumentar a sensação de profundidade de Linda do Rosário, com uma piscina e o reflexo na água nos azulejos também brancos, mas sem carne, ao menos não aparentemente.

Já se vê aí um tema recorrente na obra de Varejão: azulejos. Quadrados de cerâmica, ainda que nas obras de Varejão estes não sejam, stricto sensu, azulejos, já que não costumam ser feitos de cerâmica, mas sim de forma que a mimetize, em sua maioria brancos, sob pinturas, colocados de forma ordenada e podendo ou não formar um painel. Tanto no andar superior, com a obra Celacanto provoca maremoto, quanto no terraço acima, em Passarinhos – de Inhotim a Demini, o azulejo tem um papel importante, como a tela da pintura realizada, mas também como a própria herança portuguesa no revestimento interno de nossas paredes.

O objeto, bem como a temática, é presente na obra da artista contemporânea carioca, com influências das ciências naturais (como visto em pinturas de plantas, fungos e animais análogas a desenhos de biólogos), arquitetônicas, como as diversas pinturas em perspectiva da série Saunas, e históricas; estas principalmente oriundas das relações dúbias travadas com Portugal (novamente, o emprego dos azulejos).

Varejão também não se prende a apenas uma técnica, abarcando em suas obras pintura, escultura, fotografia e instalação. O emprego de técnica mista, como pintura e instalação, garante efeitos interessantes como o citado na relação estabelecida entre O Colecionador e Linda do Rosário.

À luz disso, é interessante debruçar o olhar novamente sobre Linda do Rosário. A inspiração para seu nome viria do desabamento de um hotel homônimo, no Rio de Janeiro, em 2002, causado por uma reforma mal realizada. Estalos e outros ruídos que precederam o desabamento teriam alertado os funcionários e hóspedes, permitindo assim que fugissem antes que a estrutura viesse abaixo. Um casal, contudo, teria ignorado tais barulhos e os avisos do porteiro, permanecendo no quarto. Sob os escombros, seus corpos foram encontrados e identificados como amantes, ele, um professor universitário, ela, bancária.

A história do desabamento gera controvérsia: teria o casal ignorado todo o prólogo do desabamento, sendo uma fatalidade potencialmente evitável, caso o porteiro insistisse em alertá-los, ou escolhido morrer ali mesmo, sem perspectiva futura? Afinal, a iminência do desabamento havia atraído a mídia e o professor, que seria relativamente conhecido e tinha esposa e família, teria a reputação arruinada, junto com o prédio a desabar. A morte, portanto, ao passo em que os conteria eternamente entre o antigo local de seus encontros, poderia também libertá-los de todas as outras obrigações. Suas carnes ficariam lá, eternamente incrustadas nos cacos da Linda do Rosário. Carnes na obra cuja sensação provocada alterna nojo e fascínio, humanização e distanciamento do ser ali em pedaços.

É evidente que há mais na obra além da referência ao hotel. Conhecendo parte da obra da artista, o emprego da mistura entre orgânico e inorgânico, quente e frio, sangue e higiene remete a muito mais. Muito pode se imaginar: remeteria também às construções erigidas sobre a morte de trabalhadores, pedreiros, escravos? As paredes recheadas de sangue e vísceras aparentariam progresso, através da construção sólido. Quem pagaria por tal progresso? Ou pensando de forma mais lírica, as paredes podem, quem sabe, ter vida. O caos dentro da ordem, o vestígio humano na estéril parede, uma relação com inúmeras facetas a serem exploradas e imaginadas.

No que tange à relação entre a artista, a obra e o texto “Arte contemporânea brasileira: multiplicidade poética e inserção internacional”, de Luiz Camillo Osorio, é possível fazer diversas análises. A primeira, e talvez mais importante, diz respeito à exploração da historicidade. O autor do texto, assim como a artista fluminense, conhecida por retomar e debater em suas obras o passado colonial brasileiro, defendem o uso historicismo nas obras de arte. Para o crítico Luiz Camillo “negar a historicidade das obras é apostar na relativização do juízo e na despotencialização crítica da arte”. Ou seja, a retomada e inserção histórica da obra fazem com que qualquer forma de relativismo inibidor de criação e ajuizamento seja evitado.

 Outro fragmento do texto que é de interessante análise situa-se na exaltação de Adriana Varejão feita pelo autor. Luiz Camillo discorre sobre o potencial da artista em retomar a história e a imagem. Afirma “(…) artista importante é Adriana Varejão, cuja pintura atualiza o passado barraco da arte brasileira.”. Essa passagem enobrece a capacidade de Varejão em perpetuar a principal expressão artística do período colonial brasileiro por meio da arte.

O passado brasileiro, como visto, é um tema recorrente explorado por Varejão, em especial na sua expressão barroca. Mais especificamente na obra “Linda do Rosário”, a realidade brasileira é enormemente discutida, seja na história do casal morto na tragédia do hotel ou na construção do progresso por cima do sofrimento. Essas duas análises da obra – uma sobre um fato real e outra sobre a história do Brasil –, são, certamente, pontos a se destacar na polissêmica obra.

A forma com que Adriana Varejão consegue passar diversas sensações e pensamentos em apenas dois elementos – azulejo e vísceras – é única e esplendorosa. As diferentes formas de interação, galeria com obra, as diferentes obras entre si e até galeria com o parque é outra característica que merece destaque, através de relativa simplicidade no que tange ao número de elementos, abrindo um leque de inúmeras interpretações.

A obra, assim como a galeria, é uma das mais procuradas pelos turistas em Inhotim. A capacidade da artista de aliar diversas formas de intervenção artística com a transmissão de sensações únicas e também com a arte barroca é espetacular. A arte da contrarreforma, com sua opulência e engajamento, ainda transborda no alumínio e poliuretano estéreis.

Edição: Enrique Shiguematu

Ensaio apresentado à disciplina Sociedade & representação: o Brasil através das artes, ministrado pelo professor Bernardo Buarque, para alunos de primeiro período de Administração Pública, da EAESP/FGV, São Paulo