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Filosofia, ciência e arte no século XVIII

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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

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Une soirée chez Madame Geoffrin (1812) Por Anicet Charles Gabriel Lemonnier

“Tornar a virtude amável, o vício odioso, o ridículo conspícuo,

eis o projeto de todo o homem honrado que pega a pena, o pincel e o cinzel”.

Diderot

A contextualização do século XVIII deve levar em consideração uma história das ideias que não se sucumbe a esquemas de explicação simplificados. A passagem de uma era de hegemonia da religião a uma outra de predomínio da ciência requer uma abordagem cuidadosa que siga as transformações paulatinas das maneiras de agir, de ver e de projetar o mundo. A leitura da obra de Diderot exemplifica as dificuldades, os impasses e as hesitações de um filósofo diante de um tempo que, vespertino, prende-se ainda à força ideológica e ao empuxo que vem do passado e do presente.

Feita a ponderação, pode-se dizer que os pensadores do período setecentista travam um diálogo direto com os sistemas filosóficos do século anterior, o XVII. Embora já despontem princípios científicos no Seiscentos, como em Bacon, Descartes e Newton, não há dúvida de que estes se encontram fundidos aos postulados religiosos. A ordenação da metafísica provém da escolástica medieval, que escalona a realidade segundo uma hierarquia imutável: Deus – alma – mundo. A ordem se apresenta sempre estanque, sendo regida pela Providência divina. Tal situação caracteriza uma sociedade estamental, em que a aristocracia e a Igreja ditam o poder.

A cosmovisão religiosa é, pois, aquela que orienta a época. Na primeira metade do século XVIII, as indagações intelectuais, seja da física, da biologia ou das nascentes ciências humanas, são questões vinculadas à filosofia especulativa. A epistemologia, o experimentalismo e a observação têm de se submeter ao apriorismo, ao essencialismo e às conclusões abstratas da autoridade cristã.

Em meados do Setecentos, a influência de pensadores ingleses começa a abalar os axiomas e as ideias inatas estipuladas pela teologia, transformando a visão de um Voltaire e um Diderot. Da Inglaterra, autores como Shaftesbury, Locke e Hume difundem o deísmo, o sensismo e o empirismo. Com isto, uma nova percepção de indivíduo e de natureza aumenta a tensão entre o discurso religioso e o científico. A relativa autonomia da ciência acompanha a secularização do pensamento e o processo de independência do homem da posição subalterna face à cosmogonia teocêntrica.

A progressiva e lenta ascendência do indivíduo como unidade diferenciada no interior da sociedade acarreta um interesse maior pela compreensão do intelecto humano. A razão é capaz de elucidar as causas e os efeitos presentes no mundo, à medida que investe na demonstração dos fatos e no descortínio das leis reguladoras dos fenômenos. À religião revelada, sobrepõe-se a filosofia experimental. Esta, porém, não nega a existência de um determinismo global e de um mecanicismo inerente à realidade.

A promessa iluminista consiste na superação da ignorância, da crendice e da superstição popular. Tal empresa só obtém êxito mediante a adoção da técnica e da ilustração como bens a serviço do esclarecimento. O embate entre a razão e o status quo no cenário político francês se dá na polêmica acerca dos regimes absolutistas, que invocam o legislador divino para manter um ambiente de estagnação. Este artifício é assim referido em O fingidor e o censor, de autoria de Luiz Costa Lima:

“A arbitrariedade dos governos despóticos não só contraria a razão, não apenas estimula e se sustenta nas superstições, não apenas corrompe a moral, sacrifica o comércio e destrói os grandes homens, mas também atinge e macula o próprio gosto das gentes. Contra todo esse leque de maldades, há, no entanto, a estrada real que a natureza oferece”. (Rio de Janeiro: Forense Universtitária, 1988, p. 112)

A união entre política e religião cede espaço paulatinamente a um novo duo: natureza e razão. Com a eleição de um método, a razão propõe não apenas uma análise empírica da vida, mas toda uma ordem moral que atende aos anseios conjunturais da burguesia ascendente. A sociedade destaca o valor utilitário e instrumental da natureza, realçando seus fins práticos e pedagógicos.

A função da natureza no século XVIII deixa de ser alegórica e contemplativa, como no Renascimento. A sua ênfase preserva, entretanto, a imagem de coesão e unidade entre as partes. O meio natural era visto como uma máquina, um circuito perfeito. Cumpria à razão, como faculdade discriminadora, a tarefa de descobrir os elos da cadeia. O princípio de ordem no mundo físico-biológico torna-se a condição necessária para a apreensão da totalidade pelo cientista.

O tema da arte aparece em torno do debate sobre a ciência. No momento em que se define o estatuto da razão no Ocidente, o objeto estético tem seus pressupostos também questionados. A mudança de padrões de gosto do século XVII ao XVIII não se reduz à substituição de amplos espaços do barroco pela valorização da miudeza, do detalhe, do ínfimo, que o pintor francês Jean-Baptiste Greuze (1725-1805) retrata em graciosos quadros sobre o interior do lar burguês.

Tal mutação diz respeito sobretudo ao caráter de ostentação que a arte possuía no ambiente aristocrático. A renovação do gosto introduz o sentido utilitário da obra, no que ela contribui do ponto de vista educacional ao novo homem em formação, com um teor didático e moral que somente a arte poderia enunciar.

A arte era dependente dos desígnios da filosofia, que concebia a natureza como um todo integrado. De outro modo, a estética remetia à ciência, que se valia de fins pragmáticos e se utilizava da razão para revelar as funções complementares do meio natural. Segundo o crítico paraense Benedito Nunes, no livro Introdução à filosofia da arte:

“A segunda Natureza que a Arte criaria e de que falam os principais representantes da doutrina da imitação, não é uma nova realidade que transcende a natural, mas uma multiplicação inventiva daqueles aspectos que manifestam as íntimas perfeições de um universo racional, íntegro em todas as suas partes, regido por leis imutáveis que a razão conhece”. (São Paulo: Ática, 1991, p. 44-45)

É o gênio que efetua a transposição das leis da natureza às leis da arte. A sua imaginação encerra um aspecto contraditório: por um lado, confere-se a ela um traço de exceção que distingue o gênio dos demais homens; por outro, essa imaginação permanece circunscrita aos limites impostos pela sujeição à natureza. O paradoxo será um dos pontos mais intrigantes e, ao mesmo tempo, mais instigantes nas formulações teóricas de Diderot. Isto porque ele evidencia a fímbria da passagem de duas grandes coordenadas da história da arte: o Classicismo e o Romantismo.

Edição      Enrique Shiguematu

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