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Subjetividade exclusiva: Um ensaio sobre “Desvio para o vermelho” de Cildo

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Victor Ferrer e Victor Hugo Duque

Paredes muito brancas, quase todo o resto preenchido por tons de vermelho. A iluminação, os móveis antigos e muito limpos na sala, a decoração precisamente organizada e planejada: tudo está certo, aparententemente. No entanto, nem mesmo o trivial movimento do ventilador ou as luzes da televisão, tão banais, conseguem garantir a calma e a tranquilidade que talvez devessem transmitir.

Não é preciso muito tempo naquela sala, cujo equilíbrio instável nos remete ao clima de um filme de suspense, para um sentimento de tensão psicológica ou instintiva predominar. À medida que se avança por um corredor para outros cômodos da casa, a escuridão se faz cada vez mais presente, de modo que, ao final, tudo o que se vê é uma pia de onde sai volume elevado e constante de um líquido vermelho. Este, à primeira vista, nos remete ao sangue. Neste momento, não se encontra mais serenidade, apenas inquietude, angústia, intensidade.Picture1

“A arte é um território livre”, diz Cildo Meireles, criador da obra. Desvio para o vermelho segue a mesma lógica: cada um, uma interpretação. Visitantes de diferentes idades, classes sociais e níveis de instrução visitam a criação de Meireles. Observando a arte contemporânea, visitantes passeiam pela obra. Todos parecem estar incluídos, e cada um vai interpretando, com as ferramentas e com o conhecimento de mundo que possui, a composição.

Para cada tom, uma inspiração; para cada objeto, uma intenção. Todos, do cidadão mais excluído de uma formação artística ao intelectual especialista na área, da mais rudimentar à mais sensível das interpretações, todos teriam captado a mensagem do Autor? A visão do primeiro, menos erudita e mais ligada a percepções intuitivas, o exclui de algum modo daquele ambiente público de convivência diversificada?

Obras de arte contemporânea, como a de Cildo Meireles, são elogiadas por muitos visitantes, de diversos grupos da sociedade. Aparentemente mais próxima daqueles que possuem menor instrução artística, por se se fazer fisicamente presente em seu cotidiano, elas transmitem, de maneira diferente da monotonia de quadros e esculturas expostos em museus, para os quais se assume amplo repertório sociocultural e uma plena compreensão, a sensação de que a interpretação de cada um, independente da sofisticação da análise, da formação artística e escolar ou grupo social do visitante, é igual.

Todavia, existem teóricos que entendem isso como uma percepção equivocada e afirmam que há certa distância entre uma interpretação primária e outra secundária. Pierre Bourdieu, um dos teóricos mais importantes da Sociologia francesa, ao estudar a fundo o assunto, junto a Alain Darbel e Dominique Schnapper, nos anos 1960, desenvolveu uma série de teses a respeito do assunto.

Na obra “O amor pela arte”, o sociólogo desenvolve a ideia de que quem não recebeu da família ou da escola os instrumentos necessários para interpretação de determinados códigos artísticos,  está condenado a uma percepção da obra de arte que toma de empréstimo a experiência cotidiana, limitando-se ao simples reconhecimento do objeto representado. E prossegue afirmando que “o espectador desarmado não pode ver outra coisa senão as significações primárias que não caracterizam em nada o estilo da obra de arte”.

Para Bourdieu, sensibilidade artística tem menos a ver com fatores naturais, como inteligência e aptidão, e mais com fatores sociais relacionados à cultura e à educação.
Ao analisar o quadro Operários, de Tarsila do Amaral, por exemplo, um olhar percebe apenas um quadro com rostos diferentes à frente de uma chaminé. Uma percepção holística, por outro lado, daria conta do cenário de crescente industrialização que a imagem ilustra, um fundo de valorização da pluralidade étnica e cultural, na qual a autora se apresenta como representante de um movimento de pintura social; de conhecimentos históricos que são relevantes para compreensão da obra, como o vanguardismo da artista, o Movimento Antropofágico e até mesmo o Comunismo. O contexto, o estilo, o tipo de traço, as influências da artista, seus objetivos com a obra e muitos outros aspectos da peça poderiam ser utilizados para a sua compreensão, porém, se apresentam de maneira exterior à obra, fazendo parte da bagagem intelectual de cada um.

Com a arte contemporânea, ocorre o mesmo, ainda que por vezes a falta de repertório se apresente de modo mais sutil. A verdadeira compreensão da arte contemporânea, segundo Bourdieu, pressupõe contraposição e/ou ruptura com os valores precedentes, valores esses que só podem ser compreendidos com dedicação, apreciação e estudo da arte. A arte contemporânea se apresentaria, sob esse aspecto, portanto, mais próxima do indivíduo menos instruído apenas aparentemente, mas, na realidade, o código de compreensão e a linguagem exigidas para a legibilidade de tais obras estão ainda mais distantes do alcance desses.

O mérito do museu, sua presença constante na mídia, os incentivos e o destaque social que ganharam Inhotim e suas obras, inclusive internacionalmente, fizeram dele uma espécie de parada obrigatória para quem diz gostar de arte no Brasil. As salas diariamente cheias de olhares curiosos, observando por vezes objetos muito simples, esconde alguma coisa. Qual parte desses olhares, não houvesse guias ou panfletos, teria sensibilidade artística, percepção estética, prática e repertório suficiente para compreender uma obra tão complexa?

Por outro lado, qual parte desses olhares, de modo consciente ou não, está mais interessado nos aspectos sociais, como por exemplo, a velha distinção que surge pela valorização de hábitos relacionados a determinada classe social? Em outras palavras, no prestígio, de que gozam historicamente os apreciadores de arte e que pode, de certo modo, ser alcançado mais facilmente hoje por meio de redes sociais, por exemplo.

Estudos de Bourdieu e Darbel analisaram os museus da Europa e apontaram que 2/3 dos visitantes das classes populares europeias não sabia citar o nome de um autor ou uma obra que os tenha agradado. Do mesmo modo que, de uma visita anterior, não retiraram saberes que pudessem ajudá-los em sua visita presente. 77% desses desejaria receber ajuda de um conferencista ou de um amigo. 67% gostaria que a passagem pelo museu fosse orientada por flechas. 89% que as obras tivessem tabuletas com descrições. Tais percentagens diminuem consideravelmente à medida que se eleva, por exemplo, o nível de qualificação acadêmica.

No Brasil, a situação não é muito diferente. Na verdade, é ainda mais grave ao se considerar que, nem mesmo nas classes mais privilegiadas, a arte recebe a importância que lhe é conferida em alguns países europeus, devido a razões históricas e culturais. Cabe ressaltar que no Brasil há pouco debate sobre o assunto, e talvez por isso, o volume de dados e pesquisas sobre o assunto seja consideravelmente menor.

Todavia, mais que analisar a Arte como elemento que integra um sistema de dominação de classes, superestrutura, como já fizeram Marx e diversos pensadores marxistas, é importante hoje pensar os fatores que fazem hoje com que boa parte da população não se preocupe com o tema, com que ela não possua a sensibilidade artística desejável e, desconhecendo o papel e a função da arte, nem ao menos a valorize. Para essas pessoas, a arte se apresenta como distante ou apenas como espécie de  entretenimento.

Como território livre, a obra citada anteriormente está aberta a diversas interpretações, assim como todas as demais de todo Instituto Inhotim. É possível entender a obra como referência à problemática da violência cotidiana, ou à ditadura militar de 1964, como oposição entre amor e morte, como referência ao ciclo de vida humano.

Além disso, também pode representar um estado de patologia emocional e paranoia pela cor vibrante do vermelho. Seus elementos podem ser lidos a partir inúmeras perspectivas. A pluralidade de interpretações, todavia, não é problema. Este se encontra apenas na comum inexistência de percepções mais profundas que as intuições sensíveis e primárias acerca da obra, um fenômeno que Bourdieu denomina “cegueira cultural”, ou seja, a incapacidade de o observador compreender determinada mensagem pelo fato do código utilizado estar além das capacidades que desenvolveu, o que deve ser sempre compreendido, mas não desejado.

A assimilação da arte presume um processo educativo que pressupõe aproximação tanto da teoria quanto da prática artísticas, de forma a torná-las, por meio do hábito, do pensamento crítico e criativo, parte inerente do intelecto de cada um e atividade social, histórica e cultural cotidiana, ou habitus, para utilizar o termo designado por Bourdieu.

“Uma mente que se abre para uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho inicial”, dizia Albert Einstein. A arte é capaz de expandir nossa noção de mundo e nosso lado sensorial, promover a sensibilização para o coletivo e, no extremo, até mesmo desenvolver sentimentos de pertencimento social e busca pelo bem comum – algo não muito trabalhado nas escolas por se tratar de exercícios abstratos e muitas vezes visto equivocadamente.

Como sugere Cintia Ribeiro Veloso da Silva: “Talvez isso decorra de equívocos construídos historicamente em relação à concepção de arte e a sua subjetividade, como a questão do ‘bom gosto’ e a influência do ‘dom’ na arte. […] As políticas educativas propriamente ditas, a cargo das secretarias de educação, nem sempre colocam como necessidade articular a Arte enquanto disciplina curricular da escola com as políticas públicas de acesso à arte.”

Para Demerval Saviani (2005, p. 98), a escola (…) tem uma função especificamente educativa, propriamente pedagógica, ligada à questão do conhecimento; é preciso, pois, resgatar a importância da escola e reorganizar o trabalho educativo, levando em conta o problema do saber sistematizado, a partir do qual se define a especificidade da educação escolar.

No âmbito de reformas educacionais, de extensão nacional, convém nos atentarmos a importância que será dada ao assunto. A função da escola não deve se limitar à noção economicista e mercadológica de formação de trabalhadores e consumidores compatíveis com a vida moderna e globalizada. Deve se preocupar também com o desenvolvimento humano de modo mais abrangente e sensível. Tema esse a ser desenvolvido pelo Estado em diálogo com toda a sociedade.

Edição: Enrique Shiguematu

Ensaio apresentado à disciplina Sociedade & representação: o Brasil através das artes, ministrado pelo professor Bernardo Buarque, para alunos de primeiro período de Administração Pública, da EAESP/FGV, São Paulo